O ORIGINAL E A CÓPIA

André Ventura iniciou as lides como comentador de futebol, tendo aprendido, nesses ‘debates’ todas as manhas que utiliza na vida política.

0
17

Ventura foi candidato autárquico pelo PSD à Câmara de Loures, descobrindo, nessa candidatura, um ‘nicho de mercado eleitoral’, o ódio contra os ciganos, que levou o CDS, de Assunção Cristas a abandonar a coligação CDS/PSD, mas que mereceu o apoio do seu protector e mentor, Passos Coelho.

Com a saída daquele da liderança do PSD, André Ventura lançou-se por conta própria, juntou os restos do MDLP, um movimento de direita radical, responsável por diversos atentados bombistas, após o 25 de Abril, o lixo do PSD e do CDS, uns milhares de descontentes pertencentes ao lúmpen-proletariado e criou o Chega.

Com o apoio de um grupo de empresários, que odeiam a democracia, e com a conivência de alguns sectores da comunicação social, foi ganhando notoriedade, sem qualquer ideia para o País, mas na gritaria permanente, típica dos debates televisivos do comentário futebolístico, ao nível da tasca, mas que encantam uma boa parte do eleitorado português.

Desde a criação do Chega até aos dias de hoje, tivemos quatro eleições legislativas, num quadro de crise económica global, derivada da pandemia e da guerra na Ucrânia, a par de um clima de suspeição em relação aos políticos, o que alargou o espectro dos apoiantes do Chega, tendo como resultado o seu crescimento eleitoral, traduzido num grupo parlamentar de 60 deputados. Curiosamente, as autárquicas não reflectiram este crescimento, o que deriva das especificidades destas eleições.

A AD ganhou as eleições legislativas de 2024 e 2025, formou um governo minoritário e tem vindo a radicalizar o seu discurso, ultramontano, numa tentativa de ocupar o espaço do Chega, na direita radical, na ilusão de que a cópia pode derrotar o original. Nada de mais errado.

Como escreveu António Barreto, ‘o bom governo exige tempo e serenidade, não sofreguidão e artimanha. Os arranjinhos poderão disfarçar o inevitável, mas não conseguirão evitá-lo (in Público 13/6/2026).
O que o governo está a fazer é a lançar o País no abismo, no radicalismo, no confronto, na ânsia de novas eleições que permitam à AD uma maioria absoluta. Os dirigentes do PSD, e não refiro o CDS que é uma caricatura de partido, ainda não perceberam o que está a acontecer. O resvalar do PSD para a direta radical, disputando o espaço com o Chega, apenas vai fortalecer este partido e ajudar à trânsfuga de apoiantes, militantes e quadros para a direita radical e original. Se até aqui saíram, principalmente, segundas linhas do PSD para o Chega, bem como alguns quadros que não conseguiam sair da sombra e encontraram na direita radical o porto de abrigo para alcançarem os seus objectivos, com a proximidade do poder haverá outras deslocações que irão esvaziar o PSD.

Entre um partido sem convicções, a navegar ao sabor de uma prática errática, que atira borda-fora o património político dos fundadores do PPD, que era o cimento de ligação das diversas faccões, com o único fim de subsistir na ‘grade farra’ do Orçamento do Estado, e um partido populista, demagógico, agregador dos descamisados e dos ressabiados, a escolha da maior parte dos eleitores é clara, como temos  assistido na Europa, optam pelo original, pelo mais radical e demagógico, porque não têm nada a perder, sem se aperceberem que estão a defender os interesses de grandes grupos económicos.

O que está a acontecer é a aplicação prática da teoria da substituição política, em que o Chega vai substituir o PSD. Contrariamente à tese de Miguel Para Roque, de que o PSD é barriga de aluguer do Chega, o que se passa é que o partido dito social-democrata está a esvaziar-se para o partido de direita radical, nos princípios e a ser sugado dos seus militantes e eleitores.

O esgotamento do PSD pode ser inevitável, tendo como consequência o regresso à bipolarização entre o Chega e PS.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui