O problema começa logo na palavra “trilionário”. O cidadão comum imagina uma pessoa que possui um milhão de milhões de dólares, tem cofres repletos de ouro ou contas bancárias sem fim. Mas não… tem é muito crédito bancário. O património atribuído a Musk resulta sobretudo da avaliação das empresas de que é acionista. Não corresponde a dinheiro disponível, mas ao valor que os mercados e os investidores acreditam que essas empresas têm hoje. E as crenças, como sabemos, mudam.
Uma empresa pode valer centenas de milhares de milhões porque um conjunto relativamente reduzido de investidores aceita comprar pequenas parcelas a determinado preço. A partir daí, extrapola-se esse valor para a totalidade da empresa e conclui-se que o seu proprietário é dono de uma fortuna gigantesca. Mas essa riqueza existe apenas enquanto existir quem esteja disposto a acreditar nela. Se um grande acionista resolver vender as suas ações, só isso faria cair o valor da empresa nas bolsas e a fortuna reduzir-se-ia imediatamente. Ou seja, a realidade é muito menos sólida do que as manchetes sugerem.

Não está em causa o mérito empresarial de Musk. A Tesla revolucionou o automóvel elétrico. A SpaceX alterou profundamente o setor espacial. A Starlink criou uma rede global de comunicações por satélite. Tudo isso é real. Mas o valor que elas representam é virtual.
Basta pensar em algumas variáveis que podem destruir esse edifício financeiro. A manutenção da liderança tecnológica. A confiança dos investidores. O apoio dos mercados. A estabilidade geopolítica. Os contratos públicos. A ausência de concorrência capaz de alterar o equilíbrio existente. A continuidade de um modelo económico que privilegia gigantes tecnológicos com avaliações sem precedentes. Quantos desses pressupostos permanecerão inalterados durante a próxima década?
E se surgir uma empresa capaz de competir diretamente com a SpaceX? E se uma mudança política nos Estados Unidos alterar profundamente os programas espaciais públicos? E se uma grande crise financeira fizer evaporar o entusiasmo dos investidores? E se um conflito internacional transformar as infraestruturas espaciais em alvos estratégicos? Nenhum destes cenários é inevitável. Mas todos são plausíveis. E bastaria um ou dois para alterar drasticamente as avaliações que hoje parecem indiscutíveis.
Por isso, quando ouvimos dizer que Musk é o primeiro trilionário da História, talvez devêssemos acrescentar que se trata de uma estimativa construída sobre avaliações financeiras que podem mudar rapidamente. Dito isto, o homem é podre de rico, aconteça o que acontecer.




