CARTAS JOCOSAS

Presume-se que carta que aqui se transcreve seja do século XIX. O texto reproduz a grafia da época.

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FEIRA DA LADRA. revista mensal ilustrada, publicada em Lisboa, entre 1929 e 1942,

Certo official de Carpinteiro, que anda tomando as suas medidas para acceitar de empreitada huma Obra, em que terá que fazer toda a sua vida, havendo experimentado algumas contradições, resolveu declarar-se com todos os instrumentos da sua Arte, o que fez, escrevendo a seguinte Carta.

“Minha Senhora, por certo que entendia eu, que chegando a avistar a avultada estancia da sua formosura, acharia nella os compridos barrotes dos seus favores, e as maiores vigas das suas finezas, mas como só encontro com as duras taboas da sua esquivança, quanto mais lhe metto a serra da minha firmeza afiada com a lima da minha diligência,então tópo mais com os duros nós dos seus desprezos, os quaes fazendo estalar a folha da minha ventura, me fazem quebrar a corda da minha esperança; pois quando me julgava subido aos altos andaimes da sua estimaçaő me vejo precipitado das roupas da sua tyrania, e posto no chaő do meu abatimento, onde junto Banco do meu triste fado,escavando com a enxó da minha desgraça, os contínuos serrafos do meu cuidado, a pesar da juntira da minha efficacia, faço em cavacos o meu coracaõ; espalhando-os pela terra das minhas tristezas, alli lhe pega o fogo do meu zelo, ardem em labaredas as aparas da minha lembrança, deixando as vivas brasas em cinzas, para o meu esquecimento.

Porém medindo com o compasso do meu sentido, a dura prancha da sua ingratidaõ, poderá ser que com a plaina da minha constancia, possa devastar a grossura dos seus desdens, e com o formaő do meu agrado possa ir abrindo brexa no duro tronco do seu peito, e vendo a senhora a ferramenta das minhas finezas, com que intento trabalhar nas portas dos seus ouvidos, e abrir as formaes janellas dos seus olhos,talvez que entaõ conheça, que as verrumas das minhas instancias, é o martelo do meu affecto, sabem pregar naõ só os tornos dos meus affagos, mas também os pregos dos meus carinhos, pela grossa madeira da sua rebeldia, e segurando-me a propriedade da sua gentileza, poderá fazer alguma obra o meu amor; porque lembrando-se a Senhora que a seu respeito tenho gasto o importante jornal das minhas lágrimas, visto tomar de empreitada o querer-lhe bem, irei quebrando as travessas das suas ingratidões, que seguraraõ os postigos dos seus repudios, e entaõ naõ porá mais taixa á minha innocencia.

Desde modo fazendo-me de engonços para a servir farei feixos dos mais extremos, e para a prender irei lançando a regua é o prumo do meu sentido, em todas as obras do seu agrado, e sendo o meu nome o Bixo carpinteiro, que por sua ventura se disvela, será tambem o Mestre d’Obras que me ensine a adoralla, para que na prompta mediçaõ dos seus preceitos, veja a Senhora bem avaliadas as obras dos meus serviços, e eu bem pagos os rendimentos da minha obidiencia &.”.

(Assinado) Guilherme da Serra Madeira

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