Decidi quebrar o enguiço e, em serena manhã de domingo, passeei-me pelas ruas quase desertas do centro urbano. Vi a calma do mercadinho, ao ar livre, no largo traseiro à igreja paroquial…

… a semiobscuridade do templo, deserto – a hora de missa já passara – convidava à oração.

Espreitei um alpendre. Saudosas do seu tempo útil, queixaram-se-me da ferrugem que as consumia alfaias agrícolas ao abandono: charruas, uma grade de bicos, uma roda (para tirar água de poço?)… E segredaram-me:
– Se pedisses à Junta de Freguesia que olhasse por nós. Até poderíamos ficar limpinhas, num espaço jeitoso, a contar aos meninos de agora para que é que nós servíamos…
– Sabem – respondi-lhes – eu não sou de cá. Vim para um casamento…

Deixei-as, porque, de repente, uns dizeres junto às portas me chamaram a atenção:
– Olá, vizinha, bom dia! Que significam estes dizeres?
– É dos Reis. Os grupos passam a cantar as Janeiras e pintam esses dizeres! Uma tradição nossa!

Li depois a explicação mais à frente, num painel, em português e inglês:


Pensei de novo nas alfaias. Se calhar, a Junta, que pôs este letreiro e até mandou fazer azulejo a mostrar como era antigamente o Largo Dr. Mário Madeira, um dos largos mais concorridos do lugar, se calhar, até era capaz de pensar nelas…
Depressa, porém, outra parede me chamou a atenção, a anunciar um Centro de Interpretação. Um Centro de Interpretação? – pasmei.

Estava encerrado, mas vim a descobrir depois de que é que se tratava: do Canhão Cársico de Ota, classificado como “monumento natural local”, «o mais espectacular e extenso vale em canhão das regiões calcárias portuguesas»! Totaliza 316,29 ha e encontra-se localizado entre as aldeias da Atouguia das Cabras e da Ota.
Um canhão é, do ponto de vista geológico, um vale estreito, geralmente provocado pela constante erosão das águas ao longo de milhões de anos. Neste caso, o culpado foi mesmo a Ribeira da Ota, curso de água sazonal que nasce na Serra de Montejunto e que percorre a Serra da Ota, onde se formaram inúmeras cascalheiras ao longo de 2,5 km, devido à erosão flúvio-cársica das paredes verticais que formam actualmente o canhão.
Gerou-se, dessa sorte, um ecossistema de características invulgares, propício a que a população para aí organize passeios, a fim de, serenamente, observar espécies raras, animais (o bufo-real, o corvo, o melro azul, a garça-vermelha, a águia cobreira, o noitibó, a águia-calçada…), assim como fósseis abundantes… Enfim, numa comunhão única! Hélder Cardoso, entomólogo do Bombarral, teve mesmo ocasião de aí instalar uma estação para estudo das borboletas nocturnas, que constituem excelentes indicadores da saúde do ambiente.
Muito longe estava eu, portanto, de vir a saber que este canhão me levaria a esquecer – pelo menos, durante algum milagroso tempo – os bem diferentes, mortíferos e barulhentos canhões da actualidade bélica!…
E, assim, Ota passou a ter, para mim, superior encanto.



