500 ANOS DO CASAMENTO DA INFANTA D. ISABEL

Portugal e Espanha celebraram o V Centenário do matrimónio que uniu duas coroas e definiu o destino da Europa Renascentista.  Esta iniciativa, liderada pela Academia Portuguesa de História, com a participação de dez câmaras municipais e outras entidades internacionais, recriou o percurso solene da "mais bela das rainhas do seu tempo" rumo ao enlace que unificou, na prática, as linhagens mais poderosas da Renascença.

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As celebrações focaram-se no Itinerário da Infanta Isabel, refazendo os passos da comitiva real que, no início de 1526, partiu de Lisboa (local de nascimento da princesa) em direção a Espanha, onde se casou com o Imperador Carlos V. Um encontro de linhagens que foi desenhado muito antes de se realizar.

De facto, pressentindo o fim da vida, D. Manuel I acrescentou ao seu testamento (1521) um codicilo com uma tarefa imperativa para o príncipe D. João: “Item muito rogo e encomendo ao dito Príncipe meu filho, que tome grande e especial lembrança e cuidado de se acabar o cazamento da infante D. Izabel sua Irmaã com o Emperador no qual elle sabe quanto tenho athe aqui trabalhado, e quanto o dezejo […]” Mais do que uma aliança afetiva, tratava-se de um movimento estratégico para consolidar a hegemonia das coroas ibéricas num mundo em expansão.

Em 1526, a promessa cumpriu-se. Após o casamento por procuração no Paço Real de Almeirim, Isabel iniciou a sua jornada rumo à fronteira. O itinerário – que passou por Torres Novas, Chamusca, Ponte de Sor, Alter do Chão e Monforte – culminou em Elvas, o último solo português que a Infanta pisaria antes de se tornar Imperatriz. Foi ali, sob o olhar das muralhas que vigiam a fronteira, que a Infanta se despediu do reino do seu irmão D. João III.

No passado dia 19 de abril, Elvas recuou no tempo para homenagear este legado. As celebrações incluíram recriações históricas com trajes de época, banquetes e danças de corte, evocando a opulência da comitiva original que impressionou as crónicas do século XVI. O som das gaitas de foles, o restolhar dos trajes de seda e o bater dos cascos dos cavalos no empedrado anunciaram a recriação do cortejo da Infanta.

O momento simbólico da “Entrega da Infanta” – a transição formal para o séquito espanhol – foi encenado na ponte sobre o Rio Caia e em Badajoz, evocando o ato diplomático que selou o destino de Isabel.

Ao casar em Sevilha, a 11 de março de 1526, Isabel não foi apenas uma rainha consorte; foi a alma do Império. Inteligente e sensível, governou como Regente de Castela durante as longas ausências do marido, a quem escrevia incansavelmente, provando que a sua educação humanista a preparara para os mais altos voos da governação. O ambiente poliglota em que viviam não era apenas um reflexo da árvore genealógica, mas uma ferramenta essencial de governação. Isabel, educada na corte de D. Manuel I, cresceu num Portugal que era o centro de um império global, dominando o português e o castelhano, além do latim. Já Carlos V, embora fosse o monarca mais poderoso da cristandade, teve de aprender a equilibrar o seu francês nativo com o neerlandês, o alemão e, mais tarde, o castelhano, que se tornaria a língua do coração do casal.

Diz-se, inclusive, que a relação entre ambos foi uma das raras exceções de afeto real genuíno na época, e a língua terá sido a ponte para essa união num império onde, como Carlos dizia, “o sol nunca se punha”.

Apesar de ter desempenhado de forma exemplar os papéis de mulher, mãe e soberana, a morte colheu-a precocemente aos 36 anos, mergulhando o seu nome num esquecimento de séculos, guardado apenas pela lenda e pela arte. Hoje, o seu olhar sobrevive na obra-prima de Ticiano, a imagem que o Imperador, apaixonado, contemplou até ao fim dos seus dias.

Retrato da Infanta D.Isabel por Ticiano, 1548 – Museu do Prado

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