Nos anos 70, a Namíbia era ainda um território ocupado pela África do Sul, governada por um regime branco racista que reprimia a maioria negra da população. O apartheid sul-africano, hoje frequentemente evocado quando se analisam outras realidades contemporâneas, era então um sistema internacionalmente isolado, apoiado apenas por alguns aliados estratégicos ocidentais e, até 1974, também pela ditadura portuguesa.
No dia 4 de maio de 1978, em Angola, tropas paraquedistas sul-africanas atacaram em Cassinga a base da SWAPO, o movimento de libertação que combatia a ocupação sul-africana da Namíbia. Depois da independência de Angola, em 1975, e da chegada do MPLA ao poder, a SWAPO encontrou em território angolano um espaço de retaguarda relativamente seguro para instalar bases, treinar combatentes e acolher refugiados.
Cassinga era um desses locais. Funcionava simultaneamente como base militar e campo de acolhimento civil, albergando também população não combatente ligada etnicamente e politicamente à SWAPO. Situada a centenas de quilómetros da fronteira namibiana, Cassinga parecia suficientemente distante para escapar à guerra. A distância, contudo, não impediu o ataque sul-africano, que acabaria por transformar-se num massacre com centenas de mortos entre guerrilheiros e civis.

A operação foi também um prenúncio do que viria depois. Nos anos seguintes, a África do Sul aprofundaria a intervenção militar em território angolano, procurando derrubar o MPLA e impedir que Angola se transformasse numa plataforma de apoio aos movimentos de libertação da região. Para Pretória, a sobrevivência do apartheid passava pelo controlo estratégico da Namíbia e pela contenção dos movimentos revolucionários internos. O apartheid sul-africano está hoje a ser replicado noutras geografias, mais uma vez com a complacência dos governos europeus e dos EUA.

A intervenção cubana foi decisiva para impedir a queda do MPLA e alterar o equilíbrio militar regional. Também em Cassinga, o contra-ataque às forças sul-africanas contou com tropas cubanas estacionadas em Angola. Os militares sul-africanos acabariam por retirar, evitando prolongar um confronto que poderia provocar perdas significativas num exército dependente de uma minoria branca relativamente reduzida.
As fotografias da época mostram sem filtro o horror da guerra: centenas de corpos amontoados, entre eles mulheres e crianças. A imprensa sul-africana, submetida à censura militar do regime, procurou enquadrar o massacre como uma vitória legítima contra “terroristas”, insistindo que a maioria dos mortos seriam homens adultos e, portanto, combatentes, mesmo quando muitos não usavam uniforme.

Existem igualmente imagens que comprovam a presença militar da SWAPO em Cassinga, com desfiles, treinos e cerimónias militares. Esse facto continua a ser usado para justificar o ataque, embora nunca tenha eliminado a controvérsia sobre a dimensão da matança de civis.


Em março de 1990, a Namíbia tornou-se independente e a SWAPO assumiu o poder. Poucos anos depois, em 1994, o apartheid sul-africano desaparecia ingloriamente com a chegada do Nelson Mandela à presidência. Na África Austral, movimentos apoiados pela URSS – como o MPLA, a SWAPO e o ANC – alcançaram o poder político, embora cada um tenha seguido trajetórias próprias, marcadas tanto pela Guerra Fria como pelas realidades internas dos seus países.
Cassinga e os que ali foram martirizados foram tabuleiro e peões, respetivamente, de uma guerra entre potências que nunca se importaram com o sofrimento humano que os seus jogos de guerra provocavam.




