PORTUGUÊS: O ‘DESESPERO DE CAUSA’

Muitas vezes, nestas mesmas páginas, me tenho insurgido contra o português da televisão, da rádio e mesmo o escrito em jornais e revistas (estes menos desculpáveis porque há correctores ortográficos). Às vezes, não sei se me apetece desistir ou, simplesmente, continuar a bater nos erros inacreditáveis que atingem os meus ouvidos e os meus olhos. Desde não saberem a diferença entre a segunda pessoa do singular e a do plural, na conjugação dos verbos, como: ‘Tu sentistes o tremor de terra?’ Até aos verbos reflexos: ‘Tu sentis-te o tremor de terra?’

0
4

A desculpa costuma ser a mesma: é o novo acordo ortográfico. Não. Não é! São conjugações verbais, são verbos. Por muito que eu rejeite o malfadado AO.

E há mais desculpas, ridículas. Não seriam desculpas se não fossem como todas as outras desculpas, ridículas. ‘Todas as cartas de amor são/ Ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas’. Não que Fernando Pessoa gostasse que eu aplicasse o seu brilhante poema à burrice que grassa por aí. Mas, enfim. Haja paciência!

Vem tudo isto a propósito do verbo ‘meter’. Hoje toda a gente mete tudo em todos os sítios. Metes graça, metes nojo, metes no livro, e tantos outros exemplos. Basta, aliás, ligar as televisões e aí está o verbo meter. As pessoas ignoram o verdadeiro significado da palavra: inserir, pôr dentro, fazer entrar, introduzir, incluir.

E todos estes ‘meter’, em lugar de pôr, colocar e outros sinónimos, me fizeram lembrar a história de uma velha amiga, exigentíssima professora de Português, que, depois de sucessivas chamadas de atenção para o uso indevido do verbo, ao ouvir um aluno do 11º ano afirmar que ‘a reação dela meteu-o furioso’ e ‘meti no texto’, perdeu a cabeça. Saturada do insucesso das suas pregações, decidiu recorrer a um momento performativo: pediu ao aluno que enrolasse muito bem uma folha. ‘Um rolo que ficasse fininho, e que depois o METESSE naquele sítio que ele bem sabia’.

Confessa a minha amiga que não tem orgulho deste episódio, ‘antes pelo contrário’. Mas, pelo menos, acredita que, pelo inusitado do argumento, ele tenha ficado na memória do aluno prevaricador ‘como uma espécie de semáforo semântico’, bem como na do resto da turma que assistiu à situação, entre incrédula e divertida.

Espero que, depois disto, metam juízo na cabeça quando aprendem português. DE UMA VEZ POR TODAS!!!!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui