Dá gosto entrar ali, porque António José Morgado Bandarra, o proprietário do estabelecimento desse nº 15 da Rua D. Sancho I, no coração da urbe, deu também em colecionar chaves de todos os tamanhos e feitios! E fez ele muito bem! Casa de Chaves chaves deve guardar!

Poderá alguma das velhas fechaduras, a adornar esse arco gótico do século XIV, no interior do estabelecimento, esconder segredos, como as profecias do profeta sapateiro de Trancoso? Roídas pelo caruncho estarão as portas que guardaram (que chaves enormes, senhores!…) e nós que nos contentemos com outros mistérios.
A essoutros já vamos, porque importa esclarecer esse de haver um arco de entrada… dentro! De facto, numa grande quantidade de edifícios antigos, sobretudo com fachadas dos séc. XVI e XVII, que hoje nos é dado observar, sempre que os seus interiores foram intervencionados nas últimas décadas, aparecem as fachadas iniciais, dos séc. XIII e XIV, que é o caso. A entremear estas fachadas e as posteriores, existe sempre a calçada da rua. Umas vezes, os proprietários mantêm os vestígios da calçada; outras, tapam-na com novo pavimento. Esta evidência denuncia que o urbanismo medieval primitivo foi sendo alterado, dando a entender que os edifícios se ampliavam para o espaço público (rua), o que parece contrariar a ideia de as ruas da cidade terem sido de largura reduzida (2 a 4 metros).
Vamos, então, aos mistérios – que, afinal, também os há por ali!
Comecemos pelo mais simples e deveras elegante, na arquivolta do lado direito de quem olha! Em requintados caracteres góticos, de primórdios do século XVI (como Mário Barroca amavelmente nos esclareceu), representa as habituais siglas jhs, cujo desdobramento é, como se sabe, Jesus Hominum Salvator, «Jesus salvador dos homens». Adoptado como sigla pela Companhia de Jesus, depressa se vulgarizou, de modo que não se estranha a sua ocorrência aqui. De salientar o invulgar esmero do canteiro que a gravou.

Anote-se ser bem diferente, a esse respeito, a opinião de Adriano Vasco Rodrigues, que, na história da cidade da Guarda, no capítulo «Testemunhos dos Cartyros,dos Tabeliões ou Notários», vê aí a sigla do nome Johanes (João), que identifica com «Johan Dominguez tabalyõ dellRey na dicta cidade», como leu num documento antigo.
Em cima, na pedra de fecho da ogiva, à esquerda, os riscos aí gravados poderão interpretar-se como a representação esquemática de um animal de carga (muar ou burro): a cauda em forma de ípsilon (Y) deitado para trás, as patas em jeito de elipses oblongas.

Pode ser, depois, fantasia de crédulo observador; imagina-se, todavia, por cima, estilizada figura humana, de chapéu em bico, saco na ponta de um pau ao ombro. Encanta-nos chamar-lhe «almocreve», a nossa homenagem aos que, Idade Média afora, iam de terra em terra, mensageiros e vendedores, suas mercadorias levando às povoações mais remotas. Acrescente-se que também essas gravações Adriano Vasco Rodrigues interpretou como identificativos de um tabelião, a exercer actividade na casa de cuja entrada o arco faria parte. A meia altura, do lado esquerdo, os riscos não terão decerto significado concreto.

Na fachada do edifício anexo, datável também, muito possivelmente, do século XVI, a moldura das portas é biselada; no lado direito de uma das portas, há uma cruz identificada como sendo marca de cristão-novo; no andar superior, uma janela, “dita” manuelina, tem lintel de arco trilobado. Orgulhosas, mantêm-se, no alto, da chamada Casa do Rabi duas gárgulas estriadas de canhão. «Casa do Rabi»? – É que o edifício está em pleno centro histórico, à ilharga de uma porta da Judiaria, na confluência das duas principais artérias medievais, que atravessavam a cidade de N/S e de E/O. Daí a (fantasiosa) designação, assim como as frequentes tentativas de ligar estas inscrições à comunidade judaica!

Nesse frontispício, nos chamaram, todavia, particular atenção os ‘arabescos’ preservados junto de uma das portas, em pedra emoldurada a preceito. Não ousamos atribuir-lhe significado; alicia-nos, contudo, ver nos dois sulcos verticais, à direita, a representação da vara e do côvado, como há na Porta da Ravessa da vila alentejana de Redondo e na célebre Porta Nova de Sortelha, concelho do Sabugal, a representação das medidas-padrão da época medieval, utilizadas para aferição prática de mercadorias e controlo comercial à entrada da povoação.

A vara portuguesa valia aproximadamente 1,10 metros, 5 palmos; em contextos medievais, o côvado era equivalente a 3 palmos, ou seja, cerca de 66-68 cm – teoricamente, no antebraço humano, a distância desde o cotovelo até à ponta do dedo médio. A fotografia que se apresenta de Sortelha está na pág. 95 do livro Sortelha: Segredos por Desvendar (Sabugal, 2012), onde o autor, Marcos Osório, explica que, neste caso, o sulco que representa o côvado mede 67 cm e o da vara 109.
Minudências, estas, de visionários! – objectar-se-á. Serão. Quiçá dessas minudências se possa entretecer a História. Revelá-las é forma de as valorizar e preservar.
(em colaboração com Dulce Helena Borges)




POVO QUE PERDE A MEMÓRIA PERDE A SUA IDENTIDADE.
BEM-HAJA PELA PELA GENEROSA PARTILHA PARA MEMÓRIA FUTURA.
Boa tarde José d’Encarnação
Por mais este belo e interessante texto percebemos como se pode gostar tanto de pedras com inscrições, camadas de História cada uma com o seu simbolismo.
Lembro-me que Sir David Attenborough coleccionava fósseis…
Mas a identificação do estabelecimento comercial do Sr. Bandarra, mais não precisava do que aquela chave de design simples, tão chamativa como eloquente. Lá dentro, depois da verdadeira entrada, veriam as pessoas a quantidade de material disponível para abrir portas antigas.
Mas são as pedras que interessam, como podem elucidar-nos quanto à data da construçao e às inscrições que o canteiro gravou a mando dos proprietários.
Como leiga em todas estas matérias segui as ideias do perito. Curioso é que, na gravação de um animal (muar?) não vejo senão figura pouco fiel do bicho, mas vejo sim o que pode ser um humano de contornos bem definidos com o tal saco ao ombro. Teria de ser um saco muito leve, senão a vara arqueava ou partia.
Não sei como se conjuga um desenho de animal tão pouco evidente (será um urso?) com uma figura humana que nós conseguimos ver logo, como se interpretássemos um teste projectivo de Rorschach. Será que o significado é: dantes havia ursos neste caminho, agora os almocreves conseguem passar por aqui sem incidentes?
Descubram depressa. Fiquei com tanta água na boca para saber tudo o que falta investigar, que até ouso “meter a foice em seara alheia”.
Um abraço.