Rente à entrada do castelo de Penedono, extremas da Beira descendo quase para o Douro, na soalheira face voltada a sudoeste, duas misteriosas pedras brancas, não longe uma da outra, estabeleceram-se, há mil anos, como verdadeiras guardiãs dos segredos do castelo, dos tesouros que jazem nos subterrâneos profundos cujas portas se cerraram, de dragões adormecidos cuja raiva uma luz nova pode agora despertar.
Integradas na solidez da arquitectura que suporta o muralhado, ali as deixou mourinha que não quis ficar cativa, bênção e maldição em simultâneo, que a chave do segredo ela não deixou e ninguém soube se morreu ou se encantada ficou ao longo do caminho.
Mil anos que passaram e ninguém se atreveu a retirar por sua mão qualquer das pedras brancas que só o vento vai gastando devagar. Ninguém sabe qual das pedras é a chave do tesouro. Ninguém sabe qual das pedras levará ao labirinto onde se reserva o fogo dos dragões, o fumo venenoso do enxofre que invadirá o céu, as águas que em tumulto descerão pela montanha num dilúvio que trará o fim do mundo.
Eu não sei se alguma vez alguém, cobiçoso, se atreveu a tocar em simultâneo nas duas pedras brancas do castelo. Nenhum velho tem memória de que isso tivesse acontecido. Mas eu acho que sim.
Foi então que o castelo estremeceu, foi quando desabou o telhado para o chão, quando as traves de castanho se dobraram e partiram, quando o fogo alastrou e tudo consumiu subindo no ar como vulcão deixando seca para sempre a água da cisterna.
Quem tal fez, de aterrado que ficou, julgo que fugiu sem nunca mais olhar para trás. E nem deu conta que a outra pedra que buliu, aquela que era a chave do tesouro, mostrou a pedraria de oiro da face do castelo onde o sol do meio-dia bate até se pôr.
Ninguém, jamais, em tentativa igual se aventurou.


Talvez, um dia, ali possa voltar a mourinha que fugiu. Chamará o povo, que virá junto ao pelourinho. Nomearão alcaide. E ela confiar-lhe-á a chave de oiro, aquela que haverá de abrir, de vez, a arca do tesouro.
E voltarão a ver-se arcas de castanho com alqueires de pão, rasas de castanhas enchendo as tulhas, vinho fervendo em adegas, nos tonéis. E acender-se-ão fogueiras com cheiros de alfazema e rosmaninho. Num verão qualquer, pelo solstício. Num verão qualquer –em que a mourinha há-de chegar.



