PRESO NUMA CADEIA CHINESA

Relatar o que se passa no interior das prisões é um empreendimento fascinante, no sentido em que pode contribuir para melhorar o sistema. Os abusos não páram por si só pelo arrepeendimento do abusador. É preciso denunciá-los. Os sistemas não se regeneram de modo automático, é preciso impôr essa obrigação a quem pode mudar leis.

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Nos EUA há um projeto que se chama “Jornalismo na Prisão” (Prison Journalism Project), onde os reclusos publicam relatos sobre a vida “lá dentro”. Muitas vezes, escrevem sob anonimato e são sempre ajudados por quem lhes publica as histórias. Em Portugal podiamos fazer alguma coisa parecida. Seria uma pedrada no charco.

Já aqui publicámos uma dessas histórias, hoje vamos publicar outra. O nome do recluso é fictício, mesmo se hoje ele já está em liberdade, depois de cumprir 10 anos de prisão. Não foi nos EUA, mas na China. O relato descreve a experiência de Jordão, um estrangeiro a viver na China com uma bolsa de estudo, ao chegar a um centro de detenção chinês após ser detido em 2014 por vender haxixe. Atualmente, Jordão deixou a China depois de cumprir pena. Tem 34 anos.

Jordão, na primeira pessoa

“Depois de ter sido detido pela polícia, passei muitas horas a ser interrogado, algemado, amarrado a uma cadeira. Mais tarde, levaram-me para  um centro de detenção em Shenyang, na província de Liaoning, onde fiquei a aguardar o julgamento.

Quando cheguei estava cheio de medo. Seria este o fim da minha liberdade para sempre? Tiraram-me do carro, fui levado para dentro de um prédio. Passei vários portões e corredores, cheirava a suor. Fui proibido de olhar fosse para quem fosse. Não podia olhar para a esquerda ou para a direita.

Eu mal falava chinês. Tinha vinte e poucos anos, nasci num país muçulmano da Ásia Central, tinha ido para a China em 2012 para estudar medicina. Nem sempre fui um bom muçulmano, gostava de festejar e beber cerveja com meus amigos, muitos dos quais também eram estrangeiros de vários países do mundo. Comecei a fumar e vender haxixe, um crime grave na China, acabei preso.

Dentro das celas, todos tinhamos a cabeça raspada, vestiamos fardas de cores diferentes: vermelho, laranja, azul, amarelo, verde, cinza – cada cor indicava um status diferente. O vermelho significava que a pessoa fazia parte de um grupo criminoso organizado, o laranja também sinalizava isso, mas que ainda não tinha sido julgado, os de azul eram pessoas que as autoridades acreditavam que não seriam condenadas à prisão perpétua ou à morte, enquanto os de amarelo haviam recebido a sentença de morte. Uma farda verde significava que a pessoa estava doente com uma doença terminal, e o cinza, doente, mas não terminal. A farda que me deram era azul.

Na cela, tinhamos de estar sentados de frente para a parede, em silêncio e imóveis. No dia em que lá cheguei, o recluso líder da cela indicou-me onde sentar. Uma voz no alto-falante disse alguma coisa. Os reclusos levantaram-se e começaram a andar em círculo. Eu fiz o mesmo. Mais tarde, descobri que essa era uma rotina diária, realizada duas vezes ao dia, destinada a melhorar a circulação sanguínea após longas horas sentados na postura de Buda.

A cela era dividida em duas, com plataformas de madeira numeradas de 1 a 12 de um lado e de 13 a 24 do outro. Cada plataforma ficava a cerca de 60 centímetros do chão. Uma passarela estreita separava as duas partes. Fui designado para o lugar número 7, mesmo ao lado da pia. A mesma pia servia para 24 pessoas.   

O recluso chefe da cela explicou-me as regras, que diziam respeito principalmente ao silêncio, à disciplina e à rotina. Havia sempre dois reclusos que tinham obrigação de vigiar se todos os outros cumpriam as regras. Esses reclusos nunca eram os mesmos. A “guarda” rodava entre todos, usavamos um boné vermelho sempre que tínhamos de exercer essa função.

A voz no alto-falante dava as ordens, se tínhamos de andar em círculos ou se tínhamos de nos sentar de pernas cruzadas, na postura de Buda. Eu nunca tinha ficado sentado de pernas cruzadas por mais de alguns minutos na minha vida. Depois de dois minutos, as pernas começavam a doer e a ficar dormentes. Depois de muito tempo, a voz ordenava que ficassemos de pernas esticadas, mas sempre sentados e de costas direitas. Posições sempre muito dolorosas..

Também usei o boné vermelho. No início não sabia o que deveria fazer, até perceber que tinha de policiar os outros presos. Quando havia algum problema disciplinar, apertávamos o botão de emergência no interfone, o alarme soava e vinham os guardas.

Passavamos os dias, semanas, meses e anos basicamente parados, a olhar. Se um recluso  precisasse de ir à pia, tinha de levantar a mão, aguardar a permissão do “guarda” de boné vermelho. À noite, as luzes nunca se apagavam, e os de boné vermelho circulavam, observando os outros. Não se podia cobrir o rosto com um cobertor, todos tinham de estar visíveis para as câmeras. Era proibido ler fora das horas destinadas a essa atividade.

O menos mau era a comida. Normalmente, sopa de tofu e pãezinhos cozidos no vapor. Arroz para os que tinham problemas estomacais. Refeições halal para muçulmanos, chineses das etnias hui e uigures e muçulmanos estrangeiros, como eu.

A hora da higiene era antes de dormir. Ao lado da pia havia três torneiras. Três pessoas à vez escovavam os dentes e lavavam as mãos. O travesseiro e o cobertor cheiravam sempre mal. A cama era de madeira, dura. Quando adormecia sonhava com a liberdade, a família. Mas os pesadelos começavam logo de manhã cedo… ao acordar.”

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