Na verdade, a tónica pessimista manteve-se em todos os contos que integram o livro. E, por outro lado, aquele apetite que eu secretamente alimentara de ver ali reviver um Alentejo de que, apesar de algarvio, eu ousara também apropriar-me, quando privilegiei o seu estudo na época romana, não foi saciado.
Nada, afinal, da terminologia alentejana. Nada da culinária mediterrânica. Nada dos cantares típicos, ao final da tarde, entre um copo de vidigueira e o naco de casqueiro com lasca de queijo cortado à navalha. Rara e insípida alusão eu encontrei ao “convento”, designação que relacionei com o modo como, em Vila de Frades, a população se referia às sólidas paredes romanas que os frades aproveitaram para transformar em remansoso mosteiro.
Tive esperança, quando miudamente contou a caminhada de solitária velhota, ao escurecer, da Vidigueira a Vila de Frades, de vir a descobrir algo de novo na paisagem de então e invocação até – em tempo de aflição – ao santo ali venerado. Nada. E – ainda por cima! – o horror do assassinato, a frio, de um recém-nascido.
Estava Fialho de Almeida de muito mal consigo e com o seu tempo, que, diga-se, confrontando com o que a História nos conta desses anos de fim de século XIX, não era, de facto, de mui confortáveis agouros.

Apesar do título «Idílio triste », ainda esperei que a história do foragido a monte viesse a terminar em êxtase, tão sequiosa andava a pastora de uma natural satisfação longamente sonhada: «E de costas no feno, ao lado do boieiro adormecido, entristecia-se a moça daquela íntima e misteriosa plenitude, à qual fazia falta o que quer que fosse: vinha-lhe uma inquietação, uma curiosidade, um frenesi… pancadas de seio, estonteamentos, vislumbres… –, e, coçando a pele sarabulhenta do ventre, pasmava de se ter feito tão de repente mulher». Nada. O fugitivo parece nada ter percebido e desapareceu para todo o sempre.
Há, porém, nesse conto particular enlevo do autor. Sentimo-lo na minucia exacta com que se delícia a descrever a natureza – virgem, dir-se-ia – em que a pastora se move. Descrição pura e crua sem laivos de adjetivo adoçante, portador de uma qualquer sugestão romântica, humanizante. Delíquio gélido. Os teóricos literários chamar-lhe-ão «decadente».
Rendo-me, por isso, a uma descrição como esta: «Estevais por toda a parte, urze pouca… Só os medronheiros protestavam com o seu verde-vivo, contra as sombrias gamas do matagal. E um silêncio! Por ali não voavam cotovias. Algum passarito do mato, destes trepadores cinzentos, ágeis, pequeninos, que esvoaçam em espiral dos troncos dos carrascos, receosos da própria palpitação das suas asas, ou o cacarejar traiçoeiro das víboras, cujos sobressaltos guardam o frenesi macabro de pequenos espíritos malfazejos da charneca». Frase burilada a preceito, adjetivo impessoal, autor ausente.
Já noutra passagem, mais atrás, autopsia-se a cena e, qual mau estudante em atenção muda por detrás de um vidro, Fialho de Almeida dá conta e… vai-se embora: «Raio de vida, ali a um canto da cozinha, os velhos pais já não fazem senão dormir e comer. Esta vida ociosa aborrece em casa de gente pobre. É um desaforo, uma pouca-vergonha… Queixa-se a nora do pão que lhe escasseia no tabuleiro? Pudera não! Os velhos não fazem senão comer. Há uma contenda à lareira? Se os velhos são uns intrigantes! Rico vai o ano de Deus, a seara folhuda e bem lançada, a vinha rija, e tão viçoso o couval! «Que vinténs nós pouparíamos, marido, ao canto da arca, se teu pai nos não pesasse tanto, o estupor ruim!».
Fialho foi-se embora; vamos nós embora também!



