O ESTUPOR RUIM

Li, de cabo a rabo, o País das Uvas, de Fialho de Almeida. Custava-me ter ficado com tão má impressão da sua mente. Estive sempre – debalde! – na esperança de me retractar do que sobre ele escrevera, em primeira impressão.

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Na verdade, a tónica pessimista manteve-se em todos os contos que integram o livro. E, por outro lado, aquele apetite que eu secretamente alimentara de ver ali reviver um Alentejo de que, apesar de algarvio, eu ousara também apropriar-me, quando privilegiei o seu estudo na época romana, não foi saciado.

Nada, afinal, da terminologia alentejana. Nada da culinária mediterrânica. Nada dos cantares típicos, ao final da tarde, entre um copo de vidigueira e o naco de casqueiro com lasca de queijo cortado à navalha. Rara e insípida alusão eu encontrei ao “convento”, designação que relacionei com o modo como, em Vila de Frades, a população se referia às sólidas paredes romanas que os frades aproveitaram para transformar em remansoso mosteiro.

Tive esperança, quando miudamente contou a caminhada de solitária velhota, ao escurecer, da Vidigueira a Vila de Frades, de vir a descobrir algo de novo na paisagem de então e invocação até – em tempo de aflição – ao santo ali venerado. Nada. E – ainda por cima! – o horror do assassinato, a frio, de um recém-nascido.

Estava Fialho de Almeida de muito mal consigo e com o seu tempo, que, diga-se, confrontando com o que a História nos conta desses anos de fim de século XIX, não era, de facto, de mui confortáveis agouros.

Retrato de Fialho de Almeida (1891), por Columbano Bordalo Pinheiro

Apesar do título «Idílio triste », ainda esperei que a história do foragido a monte viesse a terminar em êxtase, tão sequiosa andava a pastora de uma natural satisfação longamente sonhada: «E de costas no feno, ao lado do boieiro adormecido, entristecia-se a moça daquela íntima e misteriosa plenitude, à qual fazia falta o que quer que fosse: vinha-lhe uma inquietação, uma curiosidade, um frenesi… pancadas de seio, estonteamentos, vislumbres… –, e, coçando a pele sarabulhenta do ventre, pasmava de se ter feito tão de repente mulher». Nada. O fugitivo parece nada ter percebido e desapareceu para todo o sempre.

Há, porém, nesse conto particular enlevo do autor. Sentimo-lo na minucia exacta com que se delícia a descrever a natureza – virgem, dir-se-ia – em que a pastora se move. Descrição pura e crua sem laivos de adjetivo adoçante, portador de uma qualquer sugestão romântica, humanizante. Delíquio gélido. Os teóricos literários chamar-lhe-ão «decadente».

Rendo-me, por isso, a uma descrição como esta: «Estevais por toda a parte, urze pouca… Só os medronheiros protestavam com o seu verde-vivo, contra as sombrias gamas do matagal. E um silêncio! Por ali não voavam cotovias. Algum passarito do mato, destes trepadores cinzentos, ágeis, pequeninos, que esvoaçam em espiral dos troncos dos carrascos, receosos da própria palpitação das suas asas, ou o cacarejar traiçoeiro das víboras, cujos sobressaltos guardam o frenesi macabro de pequenos espíritos malfazejos da charneca». Frase burilada a preceito, adjetivo impessoal, autor ausente.

Já noutra passagem, mais atrás, autopsia-se a cena e, qual mau estudante em atenção muda por detrás de um vidro, Fialho de Almeida dá conta e… vai-se embora: «Raio de vida, ali a um canto da cozinha, os velhos pais já não fazem senão dormir e comer. Esta vida ociosa aborrece em casa de gente pobre. É um desaforo, uma pouca-vergonha… Queixa-se a nora do pão que lhe escasseia no tabuleiro? Pudera não! Os velhos não fazem senão comer. Há uma contenda à lareira? Se os velhos são uns intrigantes! Rico vai o ano de Deus, a seara folhuda e bem lançada, a vinha rija, e tão viçoso o couval! «Que vinténs nós pouparíamos, marido, ao canto da arca, se teu pai nos não pesasse tanto, o estupor ruim!».

Fialho foi-se embora; vamos nós embora também!

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