Admirava as quintas-feiras da minha mãe. Arranjava-se logo cedo, pegava na alcofa, via quanto lhe restava no porta-moedas, ia até à paragem e apanhava a carreira. Nessa altura, a Palhinha, ciente do interesse dos utentes, tinha paragem mesmo às portas da praça e aí minha mãe descia, não sem ter dado já dois dedos de conversa com as vizinhas, também elas de carreira para as compras semanais.

Minha mãe já sabia o que ia comprar e onde é que, por ser freguesa habitual, lhe poderiam fazer um preço mais em conta ou fechar os olhos ao prato da balança a pender para o lado ‘errado’, ou seja, o que beneficiava minha mãe. Sabia quem tinha os melhores queijos, a boa batata, o feijão verde tenrinho e, claro, não era toma-lá-dá-cá, que havia sempre «E a sua menina vai melhor?», «Hoje, o seu marido não pôde vir?», «Aconselha-me este melão? Não parece de mau aspecto, já sabe como é o meu marido com respeito aos melões…».



O melhor da festa era na praça do peixe. Minha mãe tinha as suas peixeiras favoritas, conhecia-as há anos, até porque, nos outros dias da semana, elas ‘viravam’ varinas e até, se fosse preciso, passavam lá por casa à hora de almoço: «Ti Anrique, hoje vai esta tecazinha para acabar?». O meu pai retorquia: «Tens aí meio cento de carapaus!». «Qual o quê? Três quarteirões!». Brincavam. Meu pai fora arrieiro em jovem, conhecia o peixe como as suas próprias mãos… E, afinal, pouco passava de meio cento. A teca ficava arrematada e a menina Sara lá dava por terminada a volta do dia.


Voltando à minha mãe. De regresso da praça, lá se encontravam de novo as vizinhas, de alcofas carregadas, porventura um ramo de flores na mão. O chofer sabia que não havia pressas, para que tudo se pudesse acomodar a preceito.
Cenas que vivi, bem diferentes das que ora vivo na grande superfície anónima, de 3 ou 4 empregados a andar pelos corredores, na sua maioria, brasileiros e a quem só in extremis perguntamos pelas tostas integrais ou «onde é que encontrarei eu anchovas?», porque até há receio de os incomodar. Na caixa já não se pergunta pelo marido nem pela filha, porque esta senhora da caixa já não é das antigas e até parece que autómato ali está a fazer um frete, «quando é que serão horas de eu acabar o turno?…». Constrangemo-nos. Não se pode perder tempo, porque o cliente seguinte já está à espera. No entanto, fomos nós a escolher a fruta, a embalá-la, a pesá-la, para que, na caixa, nada disso haja a fazer Se for Senhora «do antigamente», ainda é capaz de dar os ‘dois dedos de conversa’, porque a vida são dois dias e uma pessoa precisa de respirar um bocadinho que não é nenhuma sangria desatada, lê código de barras, mais código de barras «e este está hoje avesso a leituras»…
No elevador, a ‘menina’ até nem tem voz apressada, agrada ouvi-la; mas, já se sabe, a porta abriu e há que sair já já, senão ela volta a fechar-se!…




O mercado de Cascais…Quanto gostei de ler este texto, pois houve um tempo em que também eu, trabalhando em part-time, ia todas as quartas-feiras às compras, de preferência aos saloios que traziam as suas produções menos vistosas, mas de sabor mais agradável, como o preço.
Havia alguém que dizia: fruta bichosa, biológica…é essa que procuro!
Há castiços para todos os gostos…O meu era honrar os fornecedores habituais.
Os ovos vinham de Pombal. A senhora e o filho agradeciam as caixas vazias dos clientes, enchiam as necessárias de duas dúzias (ovo mais pequeno tem a gema praticamente igual) e com um sorriso que nunca se apagava, agradeciam a visita certa.
Chegados de madrugada, dormiriam essa noite em casa de uma cliente que, vivendo sozinha, gentilmente lhes oferecia um quarto. Calculo que não pagasse os ovos.
De manhã cedo faziam-se à estrada, já com o pequeno-almoço tomado e lá iam organizar a contratação de ovos de galinhas que debicavam couves e os bichinos da terra.
Não sei se faziam mais feiras, talvez sim. Sei que a certa altura tinham dinheiro para um apartamento na vila e havia dias em que o filho fazia tudo sozinho.
Em cada acto de compra se contava uma história. Dali para a zona do pão, amassado artesanalmente e cozido em forno de lenha, depois para o espaço coberto da peixaria – um quebra-cabeças para decidir, entre as espécies com o selo da frescura – as que mais convinham ao planeamento das refeições semanais: uma refeição de peixe, outra de carne todos os dias.
Finalmente a fruta. O critério era o mesmo que se usava para os fornecedores dos legumes. Os frutos menos bonitos que não aguentavam mais que dois dias, eram transformados em compota.
Ainda fazia chutney, enquanto um quadro secava, ou amadurecia o enredo de um novo livro. Por estas rotinas vejo como organizava o tempo, economizava uns trocos, trabalhava de forma alegre sem sentir o peso dos dias.
Há muitos anos que não vou ao mercado de Cascais senão para visitar um restaurante (duas vezes) onde podia comer todos os dias com agrado…O pior é o preço de uma refeição levar o valor gasto nos pratos da semana inteira.
A mudança…neste particular continuo a economizar.
Em relação aos façanhudos de que fala este texto, e eu por sorte não encontro por aqui, pago com a mesma moeda.
Trocaria eu o comentário pelo meu texto, tão rico ele é de expressividade e de pormenores que o meu, pobrezinho, não tem. Mas, no fundo, tal se pretende: incentivar a escrita, despertar evocações! Bem hajas, Helena! Enriqueceste-nos.
Perdão, meu caro e ilustre autor. Fui embalada pelas memórias que a tua crónica tão familiar e autêntica me (nos) trouxe.
Estava a ver aquela azáfama toda, o colorido dos toldos, das roupas, dos produtos…
Quem fica mais rica e agradece sempre, sou eu.
Sábado feliz.
Bons dias.
Também nativo cascalense.
Uma geração mais recente.
“Praça” a dias diferentes. Que continua ainda hoje.
Quartas e Sábados.
Foi acrescentado o domingo para turista.
Mas não entendi, o descritivo. É saudosismo. Quando hoje o atendem serem outros cidadãos. Nas grandes superfícies e na “praça” actual também.
O peixe também é outro. Não é apanhado cá. Nem em Cascais nem em Portugal.
Resta-os alguns legumes dos Galegos e Saloios de Torres Vedras e arredores.
Ainda bem que está diferente.
Meu caro José Jorge
Grato por ter reagido.
Não era minha intenção ser saudosista, mas simplesmente contrapor a década de 50, sem pressas e com convívio, à nossa década apressada e estereotipada. Não faço juízos de valor, inclusive, porque tenho a bênção de haver vivido e agora viver essas duas décadas. Não vou à praça agora; não sei se as donas de casa de agora mantêm esse ritual. Diz-me que já não há os saloios nem da Malveira nem de Almoçageme e que o peixe já não é o da nossa lota. Tenho pena, por questões de qualidade. E, nisso, concordo com Teresa Meira. Temos, em contrapartida (penso que ainda temos) um mercadinho no Parque Carmona aos sábados de manhã onde alguns ‘ecologistas’ vão vender os produtos das suas hortas. E sempre me congratulei, confesso, com o movimento das chamadas ‘hortas urbana’, que o município tem apoiado.
Teresa Meira
15 de agosto de 2025 17:15
Bons tempos em que os produtos eram das próprias hortas e agora vêm do Brasil, Colômbia, Nova Zelândia ….
dulce helena borges
16 de agosto de 2025 13:18
Amei a crónica da 5ª feira da senhora sua Mãe. Identifiquei-me com algumas particularidades.
Anche a Roma i mercati all’aperto sono sempre meno e non ci sono quasi più i contadini che vendono i loro ortaggi e la frutta colti, le sera prima, con la frescura del tramonto. Ora in cambio abbiamo tanti supermercati.
La mia parrucchiera, una giovane Moldava, si è intossicata mangiando un fico! sono andata a leggere per pignoleria sulle confezioni di fichi del supermercato e ho trovato scritto “Lavare accuratamente prima di consumare”, anche se si sa che per lo più i fichi non dovrebbero avere bisogno di nessun prodotto chimico, invece…e che dire delle banane che ricevono prodotti perché non maturino nei lunghi viaggi da chissà dove e poi vengono trattate con altri prodotti per farle maturare nel supermercato! E poi, i rapporti umani non esistono più, è vero. Il personale che sta alle casse non guarda neanche negli occhi i clienti, passa il prodotto sul lettore a barre e sbuffa se ci sono ostacoli alla lettura, lavora ore e ore senza alcuno scambio empatico. Non lamentiamoci: presto i Robot ci daranno tutto ciò di cui abbiamo bisogno, magari saremo più felici!
Grato, caríssima Eugenia, pela confirmação do que se escreveu, dando o testemunho de Roma e de Itália. Sim, só nos faltam os robôs para que tudo se torne ainda mais desumano!
Elisa Silva
19 de agosto de 2025 23:29
Agradeço muito […] este texto que dá tão bela recordação do mercado de Cascais.