O TRILEMA DA ESQUERDA

As eleições antecipadas deixaram o país num impasse político que não é novidade: uma maioria relativa, um Governo frágil e uma oposição dilacerada. A novidade, porém, está na ascensão do Chega a segundo partido no Parlamento. E com ela, uma inversão notável na linguagem do poder.

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Com o resultado eleitoral, desapareceu a conversa sobre o “cordão sanitário ao Chega”. Isso não existe relativamente ao segundo partido em número de deputados. Pode até ser o Chega a montar o cerco a Montenegro. O tal “cordão sanitário” poderá ser Ventura a montar quando quiser começar a espremer Montenegro. Talvez a propósito da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso Spinumviva, a empresa familiar de Luís Montenegro.

A polémica em torno da Spinumviva será uma operação de desgaste. A iniciativa de avançar com uma CPI partiu curiosamente de Pedro Nuno Santos, líder demissionário do PS, mas está a ser apropriada pelo Chega. Ventura não quer mais ser aliado de Montenegro. Quer o lugar dele.

A CPI servirá para clarificar a relação entre o primeiro-ministro e os clientes da sua empresa, mas também  para alimentar a narrativa do Chega sobre o “sistema corrupto” onde todos são cúmplices, menos Ventura.

É aqui que entra o trilema da esquerda. O que fazer quando o Chega empunha a faca e se aproxima de Montenegro? Defender o líder do PSD, empurrar a mão de Ventura que segura a faca ou ficar a ver?

Cada uma destas opções traz riscos e oportunidades. Mas talvez o maior perigo para a esquerda seja deixar-se paralisar por este problema. Se o PS desistir da ideia da CPI, deixará a iniciativa para o Chega e será esse partido a liderar o escrutínio. Se avançar, arrisca-se a dar palco para a coreografia venturista. Mas se não avançar, torna-se irrelevante.    

Neste teatro de sombras, o Chega joga para o aplauso. O PSD joga por se manter no poder. E a esquerda terá de decidir se quer ser figurante, cúmplice ou protagonista.

Com Pedro Nuno Santos, a CPI à Spinumviva seria inevitável. Pedro Nuno Santos gostava de cultivar uma atitude combativa, muitas vezes criticada por excesso de frontalidade. Agora, com a liderança em transição, o partido pode ceder à tentação do silêncio estratégico, concentrando-se em recompor-se internamente, à espera que o Governo tropece por si.

Esse taticismo pode correr mal. O espaço do combate à corrupção, da exigência ética e da denúncia do poder instalado não pode ser deixado exclusivamente nas mãos do Chega. Mesmo que a CPI à Spinumviva sirva os interesses imediatos de Ventura, ela não é por isso menos legítima. O PS não pode refugiar-se numa postura de neutralidade institucional quando está em jogo a credibilidade do primeiro-ministro. Será até provável que fique a falar sozinho, porque tanto o PCP como o Livre não terão os mesmos pruridos.

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