Muitos pensam que apenas se ensina e educa na sala de aula, não penso assim. Para mais ou menos seiscentos alunos o nosso colégio tinha apenas três contínuos, um para cada andar e se algum faltava competia aos outros dois “dar uma mão “para que o dia corresse com normalidade e corria.
Os pátios… A maioria das escolas públicas não têm pátios amplos, ao invés os colégios tem pátios amplos, pavilhão, onde os alunos praticam desporto e os professores eram espetadores atentos e algumas vezes participantes dos mesmos desportos. Era um dos momentos em que se sabia como iam decorrendo as aulas e não só. Das cinco escolas públicas na freguesia, nenhuma possuía pátio e destas, resta apenas uma pois as outras fecharam, por falta de alunos. Na tradição nos colégios Salesianos, o pátio era um local de educação, convívio, embora nem todos os docentes privassem de tal, preferindo a sala dos professores para conversar, corrigir testes, fumar um cigarro… e as professoras apenas conversavam ou eram assíduas do bar.
“Quem tem o hábito de andar descalço, esquece-se facilmente dos sapatos” (provérbio árabe)
Enquanto decorria um jogo de muitos contra muitos eis que surge um jovem dos seus doze anos, chorando e com imensa vontade de agredir um colega. Dei-me conta do sucedido, aproximei-me e chamei-o:
– O que foi, jovem?
– Aquele menino chamou-me preto.
– Tens toda a razão em chorar, mas vamos já resolver o problema.
Pus-lhe a mão no ombro e segredei-lhe: Chama-lhe branco. Assim fez e aquelas lágrimas pararam, e um sorriso largo no seu rosto que parecia outro menino.
Este pequeno, na altura com uns doze anos, prosseguiu os seus estudos, entrando na Universidade, licenciando-se em Direito. Este mesmo “menino preto”, quando concluiu, pediu-me para lhe rever a tese da licenciatura, que eu fiz com todo o gosto. Hoje exerce em Inglaterra e dá um sorriso e gargalhada quando lhe lembro: “chama-lhe branco”.
“Com os meus mestres, aprendi muito; com os meus colegas, mais; Com os meus discípulos, ainda mais.” (provérbio judaico)




Muito me congratulo com este depoimento do Filinto Elísio. Bem hajas por o teres querido partilhar connosco, nessa forma de instruir, educando para a liberdade.
Essa história do preto – que também aconteceu contigo e ainda bem – contava-ma meu pai, em tom de chalaça, porque o menino preto respondia à mãe (na versão de meu pai), «Mas o branco não se rala!», ao que a mãe retorquia: «Pois não te rales tu também!».
Um abraço!
José d’Encarnação