Maria dos Anjos é reformada. Era modista. Mas agora, para além de trabalhar a vender roupa em segunda mão, para ganhar um pouco mais, dedica-se ao voluntariado na igreja. Ajuda toda a gente que está em apuros e tem necessidades de toda a ordem. Sou amiga dela.
Nos últimos três anos teve uma vizinha, a dona Joana, já com mais de noventa anos, que estava esquecida e abandonada pela família, a viver num anexo.
Frágil, doente, quem a ajudou, até ao seu falecimento, foi a Maria dos Anjos. Era ela quem lhe fazia as compras, cozinhava e lhe tratava da casa.
A dona Joana faleceu há dois meses. Eis senão quando lhe bateram à porta. Era um advogado, da parte da família da dona Joana. Os familiares da falecida puseram-na em tribunal porque, no testamento, que a todos surpreendeu, a dona Joana deixou-lhe algum dinheiro e os seus dois serviços de louça da China, antigos e com algum valor. A família está a contestar o testamento, querendo tirar à Maria dos Anjos o que lhe foi deixado pela vizinha.
Histórias como esta devem ser banais, nos tribunais portugueses. A ganância, a cobiça, tornam as pessoas desavergonhadas. Enquanto a velha foi viva ninguém quis ter o trabalho de a apoiar. Mas, agora, morta, querem o pouco que ela amealhou.
A Maria dos Anjos acabou de contratar um solicitador e, com o meu apoio e de uma prima, que também tem conhecimentos no tribunal, está a lutar para cumprir a vontade da vizinha e amiga Joana. O juiz irá decidir o que for justo e de lei.



