Não a conheço pessoalmente a ela, é uma jovem senhora egípcia de sorriso encantador. Ele é português de sorriso cativante e anda pela mesma idade.
Conheceram-se no Cairo eram ainda mais jovens, num projecto multidisciplinar da UE, fez há duas semanas 22 anos. Muito tempo, mas sempre mantiveram, pelas redes sociais, por telefone, uma ligação forte como fio de seda a que chamo Amizade.
Ele contava-lhe que constituíra família, ia dando novidades da evolução do trabalho, das actividades paralelas que praticava, sem nunca lhe perguntar uma palavra da vida pessoal. Sabia dela o que ela queria contar.
Recentemente ele foi mergulhar no Mar Vermelho integrado num grupo de mais cinco amigos. Numa mensagem informou-a de que passaria pelo Cairo, novamente.
Quando pousaram de novo na cidade, terminada a actividade do grupo, e saído ele de um acidente descompressivo e infecção bacteriana num ouvido, estava ela à espera para lhe fazer uma surpresa e rever o Amigo que não via há tanto tempo. O cabelo de ambos embranquecera, o sorriso mantinha-se inalterado.
Os colegas do grupo dele acharam-na encantadora. Agilizou a compra dos bilhetes para entrarem no Grande Museu do Egipto (GEM) o maior museu antropológico do mundo dedicado a uma só civilização. Chegou-se à bilheteira donde partia uma fila interminável de pessoas e comprou os ingressos para todos.


Fez com eles parte da visita. Ainda ensinou a um dos funcionários, que impedia certos visitantes de tocarem uma placa com gravuras em relevo e escrita em Braille, que era mesmo para ser tocada por pessoas com deficiência visual, para que entendessem a figura que representava o que liam.




À hora de almoço indicou-lhes o melhor restaurante do espaço, mas recusou o convite para almoçar com eles. Afinal ainda tinha de vencer três horas de viagem para chegar a sua casa em Alexandria.
Resistiu em aceitar o valor da compra dos bilhetes. E com o sorriso mais simpático do mundo, despediu-se de todos e do Amigo, com a ternura de uma Cumplicidade sempre baseada no respeito e nos mesmos interesses culturais.
Quando eles saíam do restaurante confortados com a comida e com a camaradagem, avistaram-na a correr para eles carregada de presentes que fora comprar naquele intervalo: uma lembrança para cada um.
A Dignidade não lhe permitia aceitar a devolução do que quisera oferecer espontaneamente: o valor dos bilhetes. Só depois se despedia de vez sem olhar para trás e corria para apanhar o transporte.
Já tinha aprendido há muitos anos, mas voltei a escrever umas notas para me situar neste tempo entretecido de equívocos. Vivemos entre os que julgam ter tudo, mas a quem falta o respeito pelos que, parecendo menos afortunados materialmente, têm o privilégio da riqueza cultural e humana.
Assistimos ao patético julgamento de pessoas ou povos com base em preconceitos injustificados. Pensam muitos que alguém com nível de vida inferior, não pode ter superior capacidade cognitiva e um código de valores mais consistente.
E tendo viajado, interagido com empatia, nunca menosprezar uma Amizade que está longe. Ela pode resistir ao passar dos anos mantendo-se na sua forma mais pura.
Poderá esta ser uma história de Natal?
Vamos desembrulhar mais este conceito, porque é urgente fazê-lo nestes dias, para saborear o aroma do primeiro “doce” de um pacote que esperamos como prenda duradoura.

Um nome e uma mão tocando os simbolos de acessibilidade em Braille, neste Museu onde Tutankamon é a estrela principal.




Inspirador.
Uma bela história de amizade, cumplicidade e dignidade que nos faz reflectir sobre a necessidade urgente de recuperarmos os valores verdadeiramente humanos nestes tempos sombrios que atravessamos.
Uma história linda, Helena! Sei que é verdadeira e isso ainda mais me encanta, por retratar algo totalmente inesperado – e tão bonito! Bem hajas por a teres querido partilhar connosco. E quando voltarem a escrever à Annan, digam-lhe que tu contaste a história e tiveste centenas de visualizações, abençoando Annan pelo seu cativante testemunho de Fraternidade.
Que linda história, Helena! Que adivinho tenha um fundo de verdade, e pela adivinhação me fico, é claro.
Um gesto tão tocante só pode significar uma reinterpretação de Natal, sem dúvida.
Torço, muito mesmo, por que Annan volte a aparecer na vida destes seus amigos que tanto lhe dirão. A história tocou-me mesmo muito. Bem haja por ela.
Um texto comovente de ler ou uma história de Natal como se desejaria ouvir a toda a hora onde não falta a humanidade e os valores mais nobres. A cronista demorou mas voltou a trazer encanto e o espírito da época que vivemos. Os meus cumprimentos e desejos de tempo cheio de alegria e entendimento.