Há muitos candidatos à Presidência da República, mas a forma como os meios de comunicação social os tratam deixaria qualquer eleitor desatento a pensar que concorrem apenas meia dúzia. Nesta fase de pré-campanha, os principais canais de televisão decidiram transmitir entrevistas apenas com os candidatos apoiados por partidos com assento parlamentar e, numa exceção curiosa, com Gouveia e Melo – o almirante cuja notoriedade parece valer por um partido inteiro.
De fora ficam, entre outras, candidaturas como as de Joana Amaral Dias, Manuela Magno ou Tino de Rans, que não contam com apoios partidários relevantes ou pertencem a pequenos partidos que nunca elegeram deputados. São pré-candidatos como todos os outros, mas, perante a televisão, parecem existir numa categoria inferior: a dos “não convidados”, condenados à irrelevância noticiosa.
A questão não é meramente técnica ou logística. É política – e grave. O critério editorial adotado confunde-se facilmente com promoção de uns em detrimento de outros, roçando a propaganda. Muitos dos candidatos que estão a ser convidados agora representam, de facto, estratégias partidárias de “marcação de território”, de repetição das mesmas mensagens ideológicas ou de afirmação identitária dos partidos que os apoiam. Basta olhar para a candidatura do Chega, totalmente construída para maximizar a visibilidade mediática e reforçar a narrativa do partido. A verdade é que os candidatos com partidos no parlamento beneficiam de espaço privilegiado nos média, enquanto os outros continuam invisíveis.
Esquece-se, neste processo, um princípio básico do sistema político português: a candidatura presidencial é, em teoria, uma iniciativa pessoal e não partidária. A lei não distingue entre candidatos apoiados por partidos grandes, pequenos ou nenhuns; exige apenas que cada cidadão reúna 7.500 assinaturas. Neste momento, nenhum dos pré-candidatos entregou o processo. Nenhum é oficialmente candidato. E, no entanto, para as televisões, já existe um grupo de “candidatos reais” e outro de “candidatos invisíveis”.
A colagem das candidaturas aos partidos destrói o ideal de igualdade e cria uma hierarquia mediática que não existe na lei. A comunicação social, que deveria equilibrar o espaço democrático, acaba por aprofundar as desigualdades entre candidatos, quando coloca na equação o peso parlamentar das forças que os apoiam ou a fama prévia de quem concorre.
Não deviamos aceitar as razões desta diferenciação, sobretudo numa fase em que todos são, literalmente, pré-candidatos. O efeito é a opinião pública ser moldada antes sequer de o processo formal começar. E isso deveria preocupar-nos.



