De repente, toda a gente descobriu que há corrupção na Ucrânia. Como se fosse notícia. Como se décadas de clientelismo, oligarquias e verbas evaporadas tivessem sido suspensas por decreto no dia em que a Rússia invadiu. O Ocidente, que precisava de um herói puro para a sua narrativa, fingiu não ver. Agora, porém, o fogo já é demasiado visível e o cheiro a fumo tornou-se impossível de ignorar.
Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia e o Ocidente decidiu apoiar o regime ucraniano na guerra, que se fala de desvios de verbas e, principalmente, de armamento para o mercado negro. A cifra destas eventuais ilicitudes atingirá muitas centenas de milhões de euros e as alegações apontam para a generalidade dos altos dirigentes ucranianos, incluíndo Zelensky. Até agora, as suspeitas foram menosprezadas, o falatório tem sido atribuído à contra-propaganda russa. Mas, agora, talvez a percepção esteja a mudar…
A QUEM INTERESSA ENFRAQUECER ZELENSKY
A queda do chefe de gabinete de Zelensky, alvo de buscas anticorrupção, foi o momento em que a cortina caiu. Não estamos a falar de um burocrata menor: é a cozinha presidencial que está sob investigação. Mas o detalhe mais interessante está na coincidência temporal: esta mobilização súbita das autoridades anticorrupção coincide com pressões crescentes dos EUA para que Kiev aceite discutir um cessar-fogo. Não antes. Não depois. Agora.
E como por milagre, organismos antes inofensivos surgem agora musculados, eficazes, hiperactivos. Há quem diga que esse músculo vem de Washington. E não é um palpite descabido: a luta contra a corrupção é, historicamente, uma ferramenta conveniente da diplomacia americana. Limpa o que precisa de ser limpo e torce o braço a quem precisa de ser torcido.
A dúvida que ninguém quer formular em voz alta é simples: estamos perante uma purga moral ou um trabalho encomendado? E há outra, mais incómoda ainda: estas investigações servem a justiça ou servem a estratégia?


Para o Ocidente, admitir que o governo ucraniano está mergulhado em esquemas milionários será uma derrota política. A narrativa construída desde 2022 será uma mentira exposta. Por isso, a palavra de ordem é contenção de danos: apresentar as investigações e os afastamentos de dirigentes como prova de maturidade democrática, enquanto se evita qualquer explosão que comprometa a continuação da ajuda militar.
A Rússia, claro, aproveita cada detalhe como ouro propagandístico. Não precisa de inventar grande coisa, basta copiar e colar o que está realmente a acontecer. E o impacto na opinião pública ocidental é evidente: cada escândalo enfraquece a convicção, mina a solidariedade, oferece munição aos que defendem cortar o apoio.
No fim de contas, a verdade pode ser menos romântica do que a narrativa de guerra quis fazer crer. A guerra não inventou corrupção na Ucrânia. Apenas lhe deu um orçamento muito maior.
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(outros artigos sobre o mesmo tema: CORRUPÇÃO EM UCRANIANO É КОРУПЦІЯ; ZELENSKY E A CORRUPÇÃO)



