JOÃO DAS CABEÇAS

Conversa na tasca sobre a carestia da vida e outros assuntos tormentosos

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– Esta lata não custava tanto… Será que aumentou da semana passada para agora?… Mais dois litros… Lá terá que ser… Bom, o saco do cimento… de 25 quilos… vá lá, 4,91 €, não subiu desde a semana passada. Ó Manel, a tinta subiu assim tanto em relação à semana passada? O cimento está ao mesmo preço, e…

– É que a tinta é de uma nova remessa. O cimento já o tinha cá. Se calhar para a semana vou ter que mandar vir mais cimento… Olha que não sei se vai aumentar, ou não… Tem sido uma desgraça, em cada encomenda, aumenta a mercadoria. Vais fazer alguma obra lá em casa?

– Não me digas nada. Nem quero responder…

– Não me digas que é mesma coisa, outra vez?

– O que te parece? Conheces a casa, o espaço… Preciso de alguma coisa lá dentro, para levar cimento e tinta?

– Nem quero acreditar. Então é quase todas as semanas? Escuta, na outra encarnação “atiraste uma pedra à cruz”?

– Se calhar o pároco, como não me vê na igreja, rogou-me alguma…

– Olha, lá vão mais… Deixa cá ver… 35 €.

– Não ganho para isto. Estes maganos estão a dar cabo da minha paciência… Já pedi, lá no João, não sei se é quando vão para a tasca, porque a minha esquina é a de cima, mas para alertar a “maltosa”, a terem cuidado … Não adianta…

– Tens que pensar nalguma solução… Será que é de lá que saem os “atiradores” em muros? Mas é bom pores um letreiro, ou coisa assim…

– Tal e qual… Parece que vou começar com um pequeno letreiro a recomendar calma… Sei lá… A ver se não me rebentam mais a esquina, como sempre tem acontecido, é quase todas as semanas…

– O que vais escrever?

– Deixa, que logo vês. Até me parece que já roçaram a esquina outra vez… É demais… Até logo. Já tenho o papel feito no computador para colocar na parede… Passa lá para veres. Até logo.

Estive a ver. De facto, o preço da tinta subiu imenso. E não é só em Castro Verde. Onde é “que isto vai parar”!…

1 COMENTÁRIO

  1. Pode parecer estranho, à 1ª vista, que o protagonista da crónica esteja preocupado com o preço da tinta e seus sucessivos aumentos. E o dono duma esquina, em Castro Verde, onde, com muita frequência, os motoristas batem e não se responsabilizam pelos danos. O homem estava farto de proceder a reparações e de gastar dinheiro com tinta, de modo que se decidiu pelo letreiro, na esperança de que, assim, haja mais cuidado. Corre, porém, o risco de os condutores, para lerem o que está escrito, acabem por voltar a bater no muro!… Era o cúmulo da má sorte!

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