AMÁLIA, O LIVRO

Olhamos para a televisão e vemos uma coisa, olhamos pela janela e vemos outra.

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OLHAMOS PELA JANELA…

Junto ao ecoponto descarregavam-se livros de uma camioneta de caixa aberta. Biblioteca privada, decerto, alguns volumes belamente encadernados, que deixou de ter préstimo e ocupava demasiado espaço lá em casa… Habitualmente, há o cuidado de deixar os livros junto ao contentor. Desta vez, ia tudo mesmo lá para dentro!

Face ao elevado o número de exemplares e ao aspecto bonito que tinham – o despejo estava no fim… – apressei-me a ligar para a Cascais Ambiente, a contar do ocorrido, na esperança de que algo pudesse ainda salvar-se. Rapidamente veio o socorro e, boas vontades postas em acção, os livros deram entrada na Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana, para se ver, assim resgatados, qual o destino que poderiam ter.

Desta feita, porém, o ecoponto tinha água e, pelos trambolhões sofridos, poucos exemplares estavam aproveitáveis.

livros salvos do contentor do lixo

Falta de espaço nas casas; desinteresse generalizado pela leitura; cada vez maior facilidade de acesso a informação bibliográfica através da internet – estão na base de acções como a que se acaba de referir.

Doutras vezes, tive sorte, porque mão amiga encaminhou para mim, por exemplo, a biblioteca de um médico, outra de uma família inglesa, uma coleção de livros em hebraico… e a todos se conseguiu dar bom destino: a da Medicina para a secção de História da Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa (com a colaboração amiga da equipa do Doutor Germano de Sousa); uma série de livros sobre o Oriente, designadamente Macau, para o Museu do Oriente; a coleção hebraica (depois de vãs diligências junto das comunidades judaicas de Belmonte, de Lisboa e, até, de Cascais) foi para Academia das Ciências de Lisboa; as centenas de livros de bolso em inglês acabaram por ser acolhidas pelas bibliotecas de Cascais, dada a afluência de comunidades de língua inglesa aqui.

Neste momento, os Serviços de Cultura da Câmara Municipal de Cascais têm em marcha todo um procedimento, para dar adequado destino aos livros disponibilizados que já existam nas várias bibliotecas, encaminhando-os nomeadamente para bibliotecas escolares, bibliotecas de instituições ou para serem colocados em ‘pontos de troca’:  traga 4 e leve 4 (no âmbito do projecto “Lidos e Relidos Fora de Portas”)! E procura-se consciencializar cada vez mais a comunidade para a importância do livro.

E NA TELEVISÃO…

vídeo

Vêm estas reflexões, como facilmente se depreende, não apenas na sequência da tocante cena passada no decorrer do programa Em Casa d’Amália, gravado na Golegã e transmitida na RTP1 no domingo, 14, mas também no facto de, neste mês de Setembro, ser raro o dia em que se não faz solene apresentação de livros, num flagrante contraste com o dos operários que, de cima da camioneta, atiravam livros para o contentor.

O livro que a anciã, D. Piedade, da Golegã não queria que fosse para o lixo é sobre Amália Rodrigues: Fotobiografias do Século XX, concebido sob direção de Joaquim Vieira, texto de Cristina Faria. Fez bem José Gonçalez – parabéns! – em dar o devido relevo televisivo a um gesto deveras exemplar.

Quanto a apresentação de livros – e só em Cascais! –, Maria João Fialho Gouveia deu a conhecer, no dia 13, no Parque Marechal Carmona, o seu mais recente romance, as Asas de Rita (história de uma jovem nos anos 60, na Costa do Sol); Alexandre Faria terá, no dia 28, a partir das 17 h, no Jardim da Parada, o lançamento do romance Rei Amador e do infantojuvenil O Príncipe de São Tomé, este, com ilustrações de crianças são-tomenses e pretexto, para, no ano em que se comemoram 50 anos da independência de São Tomé e Príncipe, se «falar sobre o grande herói nacional deste país e o seu incrível legado em prol da liberdade». E, antes, hoje mesmo, dia 20, será a vez de Crónicas de Cascais, de Guilherme Cardoso, no auditório do Centro Cultural.

Quão chocantes, de facto, as contradições da nossa contemporaneidade: livros para os contentores e livros que, com pompa e circunstância, se faz questão de apresentar!…

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito grata por este importante texto, José d’Encarnação.
    É verdade que as notícias de lançamentos em Setembro e Outubro podem levar a crer no dinamismo da leitura, mas por outro lado também a existência deste bem cultural se tornou tão efémera como uma caixa de sapatos vazia.
    Um dia conto…
    Depois, este despejar de “tralha” junto dos ecopontos tornou-se rotineira, vergonhosa. Por um lado as Câmaras têm serviços que em determinados dias recolhem os monos. Era só os que sujam o passeio, às vezes junto de prédios alheios e quando os artigos não cabem nos contentores, fazerem coincidir o despejo com a recolha camarária.
    Por outro lado, juntar livros à sucata, é francamente triste. Já comprei em feiras de “antiguidades” livros a 1, 2 €. Uma oferta directa a instituições que não os podem comprar, seria uma digna acção.
    Como esta em que te empenhaste dando-lhes um rumo.
    É bonito.
    Também comprei a Fotobiogafia de Amália ao próprio Joaquim Vieira, juntamente com outros livros. Não impondo a aquisição, permitiu que tivessem destino. E tiveram…foram belas prendas em troca de outras que muito me agradaram.
    Um domingo feliz.

  2. Curiosidades e singularidades.
    Na constante acção de desenfreada do mundo do urbanismo, A construção Civil. Lisboa não e excepção.
    Estefânia, Cabeço da Bola, Antigo quartel General da GNR.
    Já há muito abandonado (25 anos). Transição para, espaço residencial de artista, . Seguido de ocupas, abandono e ….
    O obra iniciou, vai dar lugar a Habitação de Arrendamento a preços controlados (CML- Fundoestamo PRR)
    No processo de limpeza, de todos os monos desta área imensa e monstruosa. Alguns registos, documentação, livros foram deixados para trás. Fase de limpeza dos “agarrados” (as todas infraestruturas). Outras gentes, outras equipas ( fase de obra) e aqui alguma recuperação de documentos manuscrito de registos e livros soltos e curiosos.
    Dos quais saliento a Singularidade.
    Um livro, uma biografia inédita de Amália Rodrigues. Contemporâneo como é obvio. Numa edição Gulbenkian e do Museu do fado. Conversas e encontros inéditas da fadista com o escritor famoso Manuel da Fonseca.
    É certamente o livro do centenário desta Famosa personagem nos seus mais agradáveis momentos ao longo destes encontros e memórias gravadas e editadas agora em livro ( 1.a edição set. 2020)

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