De um tempo de infância me ficaram as suaves memórias de um colo de mãe, de um terno aconchego de colo de madrinha, do chale de felpo, como ela chamava o chale de lã que, tantas vezes, me serviu de agasalho.
De um tempo de infância eu guardo o desenho da minha aldeia, essa pequena cidade para mim perfeita, rumorejante enquanto o arco de sol a batia, silenciosa e dormente depois da hora em que o sino da torre tocava Ave-Marias.
De um tempo de infância me ficou essa viva memória da sombra dos castanheiros da pequena Quinta de meu pai, uma espécie de paraíso como aquele que Javé deu a Adão. Só mais pequenino.
E havia lá todas as árvores de fruto. Macieiras, pereiras, cerejeiras, ameixieiras, pessegueiros, figueiras. Havia as nozes das nogueiras, avelãs das aveleiras. E havia os castanheiros com troncos tão largos que parecia terem vindo dos tempos de Adão. E havia os morangos silvestres, as amoras. E as tílias das quais minha mãe colhia a flor com a mesma graça com que colhia as flores de uma roseira. E, ao contrário de Adão, eu podia comer de todos os frutos da Quinta de meu pai, ao Valbom, que assim lhe chamava a gente. Na distância havia os pinheirais.
Talvez meu berço ali tivesse descansado alguma vez, à sombra dos castanheiros e o rumorejar da folhagem e o cantar das rolas, no estio, e o rítmico picar do pica-pau abrindo o ninho seriam canto de embalo para os meus sonos de infante.
Não dei conta, mas eu cresci à sombra destes gigantes bons, os castanheiros da Quinta do Valbom, que assim lhe chamaram meus avós.
Meus braços nunca puderam abraçar os velhos troncos desses castanheiros, que iam a caminho de mil anos, mas os gestos das minhas mãos eram mansos, passeando sobre a aspereza da pele desses gigantes, que o tempo marcara de sinais.
Não sei quantas vezes me acoitei no tronco esburacado desses castanheiros velhinhos, inventando mágicas cavernas de contos antigos ou tão só armando com ramos casinhas de brincar de uma cidade fingida.
Mais tarde, longínquos dias de verão de que recordo cantares de ceifeiros, sentava-me, às vezes, naqueles alongados braços desses gigantes pacientes e bons que balouçavam comigo sem que eu desse alguma vez conta de um ai.
Lembro-me das abelhas voltejando, lembro-me do mel dos cortiços de meu pai, tinha a cor do ouro e o sabor, dizia ele, do pendão dos castanheiros. E das castanhas caindo com os ventinhos de outono, de minha mãe, da cesta cheia, dessa inesquecível cor de rubi das castanhas martainhas, e dos magustos nas eiras, dos cachos maduros, da vindima, da festa no lagar, do vinho novo, do púcaro de castanhas na lareira, desse manto de ouro da folhagem macia com que os vestia o Criador antes que adormecessem de cansados, antes que a neve descesse para os agasalhar, antes que o vento soprasse e eles, de tão velhinhos, ofereciam os braços e deixavam-se embalar.




De: Alberto Correia
Enviada: 19 de setembro de 2025 09:30
Um último incêndio no meu concelho destruiu centenas de castanheiros, alguns centenários, como este.