À direita da oficina, uma pilha de carros para abate, mas ali sossegados numa camada de pó. À esquerda, outros tantos, ainda a pedir vida, os assentos para os meus primos e eu. Não eram os carros que nos impressionavam, era a parede branca onde, assim que se ouvia o trrrtt trrrtt da máquina mágica do Sr. João, Charlot aparecia na parede! Riamos, chorávamos com as histórias do vagabundo, Charlot na primeira pessoa. Pedíamos sempre para repetir e o Sr. João fazia-nos sempre a vontade como um maestro perante uma ovação transcendental.
Hoje, desço a Avenida da Liberdade trauteando a música romântica. O filme, o vagabundo, o poder de uma orquestra ao vivo, a voz de um filme que nunca é mudo, traz a lágrima no canto do olho e a risada no canto da boca, “A Quimera de Ouro”. A orquestra é brutal, a sala do São Jorge também, é tudo absolutamente bonito. Saí encantada, princesa num conto de fadas.
O cinema é um milagre que tanto nos salva como destrói. Quando nenhuma dessas coisas acontece, é porque foi assim-assim, de mastigar e deitar fora. Vivemos tempos modernos onde as imagens e os instantâneos de histórias só contribuem para a estupidificação. Tempos de pastilha elástica…
E vou trauteando pela Avenida da Liberdade a música que Charlie Chaplin compôs, Charlot interpretou, e a orquestra tocou com mestria. Acabou-se a quimera, descobriu-se o ouro. Puro cinema.
Numa outra noite, entrei no Salão Nobre da Voz do Operário que faz justiça ao nome. Um ecrã pequeno, mas suficiente, cadeiras de plástico, a espera pelo início da sessão.
Desde o primeiro frame que não há nada de assim-assim ou pastilha elástica. Ele prende-nos de imediato e atrás dele seguimos pelas ruas de Paris em busca do que parece ser apenas uma quimera.
Começo a mexer-me na cadeira, perdi a postura confortável que não recuperarei. E a história vai piorando e por ele nos apaixonamos cada vez mais, é uma genuinidade galopante.
Não chorei, estava demasiado incomodada para isso. É isso mesmo “A História de Souleymane”, um incómodo insistente maior do que um soco no estômago. Não dá lugar a lágrimas, é seco, não nos deixa olhar para o lado.
Quando finalmente conhecemos a história escondida de Souleymane rendemo-nos, não apenas à dureza do que relata, mas à estonteante interpretação de um ator no seu primeiro papel, inspirado na sua própria vida.
Saí encantada e sofrida, não trauteei nenhuma canção, não fui princesa, mas saí feliz porque pude escolher sair feliz. O cinema é um milagre que tanto nos salva como destrói.
Caminho pelo bairro da Graça sem chuva, o elétrico 28 passa por mim. A rua está molhada, as luzes refletem-se esborratadas nas poças de água, o super-mercado ainda está aberto.
Charlot é a mais bonita recordação que tenho do cinema. A “Vida de Souleymane” restaurou-me a fé nele. É um dos filmes mais duros e encantadores que vivi. Puro cinema.



