O Poder da Paisagem

Quando, em Agosto de 1986, propusemos a Luís Elias Casanovas (1926 -† Dezembro de 2014), a montagem da exposição Cascais no Tempo dos Romanos nos baixos do Palácio Cidadela, em Cascais, estávamos longe de pensar que se estava a lançar uma pedrada no charco. A exposição «O Poder da Paisagem – Olhar uma Paisagem e Pensar no Mundo», aí inaugurada no sábado, 29, mostra que se abria um bom caminho.

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Eram uns baixos abobadados, meio abandonados, a servir de arrecadação do palácio. Ao Instituto Português do Património Cultural acabara de ser entregue o Palácio da Cidadela, a fim de se lhe dar algum préstimo, na medida em que deixara de ser residência de Verão do Presidente da República.

O dinamismo de Luís Casanovas não se fez rogado e o palácio ganhou força na realização de iniciativas em prol do património. E quando Guilherme Cardoso e eu lhe propusemos a realização duma exposição que mostrasse quanto Cascais tinha de relevante no âmbito dos vestigios romanos – haviam gorado todas as diligências para se fazer na vila um Museu de Arqueologia!… – o Eng.º Casanovas apoiou a iniciativa com todas as veras da sua alma.

Vítor Belém, artista cascalense então em serviço na Divisão de Artes Criativas e Montagem da Secretaria de Estado da Cultura, agarrou no projeto e a exposição – feita também com o apoio do Município, então dirigido por Georges Dargent – teve considerável êxito.

Primeiro, porque se mostravam, pela primeira vez, singulares peças exumadas nas escavações em curso, nomeadamente na villa romana de Freiria, e espólio guardado (mas não evidenciado) no Museu dos Condes de Castro Guimarães. Depois, porque foi voz unânime de aplauso pelo aproveitamento do espaço.

Perdoe-se-me esta evocação, mormente porque se há-deter em conta que, após esse já longínquo Agosto de 1986, sobretudo após o Palácio ter sido integrado no Museu do Presidência da República, muitas outras exposições ali se hão realizado, sempre com enorme êxito e muito agrado. Senti, porém, a necessidade de referir esse primórdio, porque a exposição O Poder da Paisagem, enaltecendo-se, cumprindo cabalmente o seu objectivo de mostrar quanto, desde sempre, houve interligação íntima entre o Homem e Paisagem em que se movimenta e age, enaltece também o espaço em que se instalou.

Por conseguinte, permita-se-me que o primeiro grande aplauso vá precisamente para essa perfeita comunhão que se logrou obter entre os painéis que sustentam os quadros e as abóbadas nuas, de tijoleira e argamassa, que lhe estão por cima e que com todo o ambiente perfeitamente entram em comunhão, criando uma atmosfera, que não hesito em chamar de única. Esta exposição, confesso, de quadros com molduras imponentes, mostrada num qualquer outro espaço, sem esta cor de fundo (parabéns à equipa de montagem!), esse seu convite à intimidade, à introspecção, envolta em mui acolhedora luz difusa, não surtiria o efeito que ali desperta.

Sim, toda a equipa do Museu Nacional de Grão Vasco, eficientemente chefiada por Odete Paiva, e a eficaz equipa da Fundação D. Luís I souberam entender à perfeição o que se pretendia mostrar, numa evolução cronológica e temática ímpar; mas, perdoar-me-ão, o espaço que tão eloquentemente souberam aproveitar muito contribui para que o visitante se sinta bem e não tenha pressa de sair. Aliás, entrar ali é como que entrar num outro mundo, deixar do lado de fora barulhos incómodos, ansiedades inúteis… Tudo fica na claridade exterior, para dar lugar a uma outra claridade, de forte relação com o Criador e com os criadores.

Estranhar-se-á, porventura, esta alusão ao Criador. E eu explico: é que o primeiro «quadro» que se mostra, a primeira paisagem que somos convidados a apreciar não é fruto de humanos. São «dendrites de pirolusita em calcário». Parecem arbustos desenhados, mas não são de origem vegetal: «resultam da impregnação de água repleta de óxido de manganês que, ao circular lentamente por entre as fissuras da pirolusita, preenche as paredes do mineral» e… nós vemos ali «paisagens de musgos ou fetos». Maravilha!…

Maravilha será também o bloco de quartzo hialino leitoso com turmalina melancia, caracterizada esta «pelos seus cristais prismáticos de cor verde no exterior e rosa no interior, fazendo lembrar uma fatia de melancia madura».

Apreciar-se-á a pintura que Ricardo Hogan fez, em 1890, da Boca do Inferno. Admirar-se-á o óleo sobre madeira de José Serra Motta, a mostrar-nos o Tejo entre a imponência das Portas de Ródão. E demorar-se-á o olhar não só sobre a sequência de baixos-relevos das estações do ano, mas, de modo especial, sobre a poética legenda que os encima: «Todas as esperanças da Primavera e todas as acções do Verão terminam com o Outono. O Inverno é a época da espera». Legenda, de certo modo, bebida nas p. 66 e 67 da dissertação de mestrado apresentada, em 2021, por Rafael Frattini Cabral ao IADE, sob o título «A paisagem das quatro estações como referência de observação, aprendizagem e reflexão artística e humana». Na verdade, observação, aprendizagem e reflexão são palavras que brotam, naturalmente, ao percorrer-se esta exposição que, ao «olhar uma paisagem» induz a «pensar no mundo».

Um percurso proposto para lentamente saborear, desde os primeiros tempos, em que a noção de paisagem era inexistente, até aos nossos dias, em que o Homem persiste em transformar a paisagem a seu bel-prazer e é o que se vê em todos os dias. Como o lamento daquele rio que transbordou e pede perdão, porque lhe invadiram o leito: «Me perdoe, eu só queria passar», magnífico poema-libelo de Scheilla Lobato, divulgado em 01/02/2020.

Jardim Antigo – Marzovelos, 1921, Joaquim Lopes (1886-1956) | Óleo sobre tela, MNGV 2314

Descobriremos quadros de Columbano Bordalo Pinheiro, Silva Porto, Falcão Trigoso, Paula Rego, Grão Vasco… Ao todo, cerca de 90 pinturas da coleção do Museu Nacional Grão Vasco, de Viseu, que na sua maioria têm estado inacessíveis ao público. «Organizada em cinco núcleos temáticos», escreve Odete Paiva na abertura do catálogo, «a exposição mostra o encontro ativo entre o Homem e a Natureza e a forma como este foi registado pelos pintores de diferentes épocas».

Paisagem, Júlio Gonzaga Ramos (1868-1945) | Óleo sobre madeira, MNGV 2339

Na cerimónia de inauguração estiveram presentes, entre outras individualidades, Alexandre Pais, Presidente de Museus e Monumentos de Portugal, o organismo do Ministério da Cultura que tutela o Património Cultural; Jorge Inácio, em representação da Directora do Museu da Presidência da República, Maria Antónia Matos; Salvato Teles de Menezes, Presidente do Conselho de Administração da Fundação D. Luís I (entidade que ora tutela o espaço), e Carlos Carreiras, Presidente da Camara Municipal de Cascais. Todos tiveram palavras de aplauso e congratulação pela iniciativa.

A exposição estará aberta ao público até 6 de Outubro, prevendo-se visitas guiadas para o público em geral, para grupos e para as escolas – com ou sem marcação prévia (consulte-se a página do Museu da Presidência).

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