O elogio do livro

A cerimónia de entrega dos prémios atribuídos pela Sociedade Estoril-Sol, referentes a 2021, a uma jovem jornalista (Cristina Gomes), a um escritor consagrado (João Tordo) e a um editor (Zeferino Coelho) consagrou o elogio do livro, da leitura e da Cultura em geral.

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O Editor

O editor Zeferino Coelho foi galardoado com o Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural. Responsável pela editorial Caminho, editou José Saramago, desde o primeiro livro, Levantado do Chão, e também vários dos galardoados com o Prémio Camões.

Louvou-se o seu exemplar empenho na difusão do Livro. Mais de 50 anos como editor, desde 1969; entrou na Caminho em 1977.

Zeferino Coelho (ao centro)

No seu discurso, declarou-se feliz, por ter sido premiado um editor; honrado, por o galardão consagrar o nome de Vasco da Graça Moura; surpreendido, porque nunca lhe passara pela cabeça que um editor pudesse vir a ser galardoado, ele, cujo trabalho se compara com o da rémora, a limpar o tubarão: o editor limpa para que o autor brilhe! Por isso, considerou ser esta uma homenagem também aso seus colegas editores; e fez questão em agradecer aos trabalhadores da sua equipa, que estiveram presentes no auditório.

A jovem jornalista e escritora

Catarina Gomes, 35 anos, jornalista: ­«É bom ter uma jornalista a entrar no mundo do romance», dirá Guilherme d’Oliveira Martins. Escreveu «Terrinhas». Com ele anhou o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís.

Catarina Gomes

Como o júri escreveu e foi, na ocasião, repetido, estamos perante «um romance que, a partir do ponto de vista de uma mulher tipicamente citadina, coloca em confronto o mundo rural e o mundo urbano. A memória dos pais, que quase religiosamente vão à terra para trazer batatas, as quais invadem a cozinha e o imaginário da narradora, fornece a visão irónica e, por vezes, mesmo hilariante, com que esta avalia a infância e enfrenta dores e dramas da idade adulta. A alegria e a comovente ternura na avaliação da vida e da morte, associadas a uma escrita fluida e elegante, dão a este romance um indiscutível alcance literário, que importa valorizar e divulgar».

Catarina fez questão de trazer uma batata para a acompanhar no breve discurso de agradecimento que fez. Declarou que a ideia de escrever um romance sempre a aterrorizara, «era demais para mim». Acontecera, porém, o confinamento da pandemia; não podia ir fazer as entrevistas e as reportagens programadas; agarrou, pois, no romance, que estava encalhado desde 2020. E concluiu que, afinal, «não há que ter medo da literatura; a literatura pode tratar de tudo, mesmo duma batata!».

O escritor consagrado

Quanto ao conhecido João Tordo, galardoado por ter apresentado ao concurso o livro Felicidade, sirvo-me também das palavras do júri:

João Tordo (ao centro)

«É um romance de formação emocional e afetiva de um homem constituído em narrador, embora sem nome que o identifique ao longo do livro. O dramatismo de solidão do narrador e protagonista de romance assume grande intensidade e poder de envolvência no leitor. Também a engrenagem se situa num plano de realização preciso mas criativo. Os nomes das três figuras femininas, Felicidade, Esperança e Angélica, projetam um simbolismo que expande o próprio processo imaginativo».

Situa-se o enredo nas vésperas do 25 de Abril. Há nele feitiço, assombração…

No agradecimento, «estou um bocadinho nervoso», aludiu ao facto de, amiúde, encararmos a vida e a morte presentes no mesmo lugar (uma das trigémeas morre); para ele, o narrador é assim como acontece na tragédia grega (penso eu que queria aludir ao coro, que, na tragédia grega, vai comentando o enredo), tragédia que pode terminar em comédia. Não perfilha o reinante «optimismo selvagem», antes o recrimina; sente que o pathos grego é empatia, paixão. Confessa: «Não sou opai mas um tio bastante empenhado». Sabe como é bom ter, no quotidiano, «um sítio onde é costume  deixar a chave do carro». Pugna pela inevitável mudança das nossas vidas.

A cerimónia

Abriu Mário Assis Ferreira, às 18 h. e 22 m, na qualidade de vice-presidente do Conselho de Administração da Estoril-Sol e – acrescente-se – como persistente alma mater das iniciativas culturais da empresa (a multipremiada revista Egoísta não foi esquecida.

Mário Assis Ferreira, Estoril Sol

Salientou como a cerimónia se contrapunha aos muitos fenómenos adversos que, nos últimos tempos, afetaram a vida da Sociedade – como as quebras abruptas da receita, o tenebroso quadro depressivo que se criara… – apresentando-se, pois, como símbolo das suas apostas pioneiras em prol da Cultura, resistindo a todas as provas, na honrosa tradição que faz da «promoção da Cultura um desígnio que sempre nos acompanhou nesta casa». No voto de que o contrato de concessão venha a ser revalidado (recorde-se que o concurso para novo contrato tem vindo a ser sucessivamente adiado, designadamente por causa da pandemia). Falou durante 12 minutos.

Guilherme d’Oliveira Martins deu conta do trabalho do júri. Curiosamente – e tal também aconteceu nas versões anteriores – não foi mencionado o número de concorrentes (e como a gente gosta de estatísticas!…) e referiu as razões que atrás se apontaram, justificativas da unanimidade das decisões. Não chegou ao quarto de hora o seu depoimento.

Procedeu-se de seguida à entrega dos prémios: o Senhor Ministro, as peças escultóricas representativas; o Dr. Assis Ferreira, os cheques.

Agradeceram os galardoados: João Tordo (11 minutos), Catarina Gomes (8 minutos) e Zeferino Coelho (7 minutos).

Pedro Adão e Silva quis dar os parabéns não como ministro mas na qualidade de leitor; apelou para que todas as entidades particulares colaborem, como o faz a Estoril- Sol, nesta campanha de promoção da Cultura, promoção que não pode ser apenas apanágio do Governo. Salientou que estávamos a comemorar uma «geração de ouro», estes ‘centenários’ (Saramago, Agustina, Natália Correia…). Referiu que os prémios são importantes, para lembrar os nomes dos nossos escritores (exemplificou: é muito difícil, hoje, ir a uma livraria comprar um livro de Fernando Namora, não há!) e para incitar à leitura. E como é importante atribuir bolsas para incitar à criação literária. Falou 12 minutos.

Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva

Fotos: Casino Estoril / Conceição Alves

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