NOVE AMERICANOS MORTOS

PESAM MAIS QUE 70 MIL PALESTINIANOS

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Nas redes sociais continuam a circular imagens e testemunhos das atrocidades cometidas pelas forças militares israelitas e pelos colonos que, com a proteção dos militares, ocupam terras, destroem casas, vandalizam propriedades agrícolas, expulsam populações e matam pessoas. Em Gaza, os bombardeamentos prosseguem, deixando diariamente mortos, feridos e corpos dilacerados. Há imagens tão violentas que nem sequer podem ser reproduzidas na maioria das plataformas. Na Cisjordânia, a destruição e a expulsão da população palestiniana prosseguem por outros meios, mas com a mesma impunidade.

É difícil compreender como tudo isto pode acontecer à vista de todos, durante tantos anos, sem que os governos ocidentais, particularmente os europeus, façam alguma coisa para o impedir.

Num recente discurso de 29 de setembro, no Senado, o senador norte-americano Chris Van Hollen, enumerou nove cidadãos americanos mortos na Cisjordânia, desde janeiro de 2022, por colonos israelitas ou pelas forças de segurança israelitas. Nove pessoas, cujas mortes continuam sem investigação, sem responsabilização dos autores e sem justiça para as famílias.

Os nomes foram pronunciados um a um: Omar Assad, Shireen Abu Akleh, Tawfic Abdel Jabbar, Mohammad Khdour, Aysenur Ezgi Eygi, Amer Rabee, Sayfollah Musallet, Khamis Ayyad e Nasrallah Abu Siyam.

Entre estes casos, o senador assistiu à morte de Saifullah Musallet, um jovem americano de 20 anos, espancado por colonos israelitas. Segundo afirmou o próprio senador, a chegada da ambulância foi impedida durante mais de duas horas. O jovem agonizou sem assistência médica, até morrer.

São nove americanos mortos em mais de quatro anos. Nove. É este o número que importa reter. Não porque as suas vidas tenham menos valor do que as dezenas de milhares de palestinianos mortos em Gaza, mas precisamente porque a sua nacionalidade americana parece ter sido necessária para que alguns representantes políticos dos Estados Unidos começassem a falar daquilo que acontece na Palestina.

Quantos outros cidadãos americanos de origem palestiniana terão morrido em Gaza sem sequer figurarem neste levantamento, que se limita à Cisjordânia? É esta a dimensão mais perturbadora da questão. Os mais de 70 mil palestinianos mortos em Gaza não foram suficientes para provocar uma reação política desta natureza. A destruição de cidades, hospitais, escolas, a fome, a expulsão de populações e a violência quotidiana na Cisjordânia também não. Mas nove cidadãos americanos mortos começam a ser um argumento que já não pode ser ignorado em Washington.

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Não quero transformar Chris Van Hollen num exemplo tardio de consciência política. O senador merece reconhecimento por ter levado estes casos ao Senado, mas a sua intervenção também deve ser lida à luz do momento político americano. A administração Trump enfrenta uma contestação crescente, e a relação de Washington com o governo Netanyahu tornou-se cada vez mais incómoda para sectores da política americana. A ousadia de falar começa a ser possível quando o silêncio deixa de ser politicamente conveniente.

Aliás, o próprio Van Hollen reconheceu que a ausência de responsabilização não começou com Trump: também a administração Biden foi incapaz de exigir consequências. A cumplicidade americana tem continuidade política, independentemente de quem ocupa a Casa Branca.

Talvez a maré esteja a mudar na Europa e nos Estados Unidos. Não por algum sobressalto de humanismo nas lideranças políticas ocidentais, mas porque o custo político de continuar a proteger incondicionalmente Israel começa a ser insuportável. É pouco. É muito pouco, perante a dimensão da tragédia.

Foram necessários nove americanos mortos para que um senador se levantasse no Senado e denunciasse a impunidade israelita. Quantos milhares de palestinianos terão ainda de morrer para que os Estados Unidos reconheçam que todas aquelas vidas tinham exatamente o mesmo direito a ser defendidas? É uma questão retórica. Eu sei qual é a resposta.

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