A CAMISOLA 7 FICA

O QUE PORTUGAL PERDE COM A SAÍDA DE CRISTIANO RONALDO

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Há despedidas que encerram uma carreira. E há outras que nos obrigam a pensar sobre o valor das referências que uma sociedade constrói e, por vezes, não sabe preservar. Há notícias que nos deixam mais do que uma sensação de tristeza. Deixam-nos a consciência de que uma parte da nossa história chegou ao fim. A despedida de Cristiano Ronaldo da Seleção Nacional é uma dessas notícias.

Durante 23 anos, habituámo-nos a vê-lo vestir a camisola de Portugal. Habituámo-nos à sua presença, à sua ambição, aos seus golos, à sua determinação e àquela vontade quase indomável de vencer que fez dele uma das maiores figuras da história do futebol mundial. Essa presença terminou.

E não estamos apenas perante a saída de um futebolista extraordinário. Estamos perante o fim de um ciclo que acompanhou várias gerações de portugueses e que levou o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo.

Cristiano Ronaldo representa muito mais do que os números que deixa: 234 internacionalizações, 146 golos, uma carreira internacional extraordinária e uma história construída com trabalho, sacrifício e uma capacidade invulgar de superar os próprios limites. Foi protagonista de momentos que pertencem à memória coletiva do país. Esteve presente nas alegrias e nas desilusões, nas conquistas e nas derrotas. Liderou uma geração que conseguiu dar a Portugal aquilo que durante tanto tempo pareceu distante: a conquista de um Campeonato da Europa e de duas Ligas das Nações.

Mas talvez o seu maior legado não esteja apenas nos títulos. Está naquilo que ensinou a milhões de pessoas, dentro e fora de Portugal: que o talento precisa de ser trabalhado, que a ambição exige disciplina, que a derrota não tem de ser o fim e que a vontade de vencer não deve desaparecer quando os obstáculos parecem maiores do que as nossas forças.

Ronaldo tornou-se uma referência para jovens de todo o mundo. Não apenas para aqueles que sonham ser futebolistas, mas para todos os que procuram um exemplo de determinação, coragem e superação. É por isso que a sua saída da Seleção nos deve fazer refletir.

A polémica com Jorge Jesus, as divergências, as palavras não cumpridas e a forma como o conflito evoluiu acabaram por conduzir a um desfecho que ninguém deveria desejar. Não cabe agora transformar esta despedida num julgamento de responsabilidades individuais. Cristiano Ronaldo tem as suas responsabilidades, como qualquer outro profissional. O selecionador tem as suas. E a Federação tem também a obrigação de preservar a estabilidade, a dignidade e os interesses da Seleção Nacional. Mas há uma pergunta que permanece: não teria sido possível encontrar outro caminho?

O futebol é feito de decisões técnicas, de hierarquias e de autoridade. Nenhum jogador está acima da equipa. Mas também seria um erro esquecer que há jogadores cuja dimensão ultrapassa a função que desempenham dentro do campo. A sua presença transporta história, experiência, identidade e uma capacidade de mobilização que não se substitui de um dia para o outro. Portugal continuará a ter uma Seleção. Outros jogadores surgirão, outras gerações conquistarão o seu espaço e novas vitórias poderão chegar. Mas não será a mesma Seleção. E não será a mesma relação emocional que milhões de portugueses construíram com aquele número 7.

Há também uma dimensão internacional que não podemos ignorar. Cristiano Ronaldo tornou-se uma das maiores figuras de reconhecimento mundial associadas a Portugal. Em estádios, cidades e países onde a nossa história, a nossa cultura ou a nossa língua são pouco conhecidas, o seu nome e a bandeira portuguesa caminharam muitas vezes lado a lado. O seu afastamento representa, por isso, uma perda que ultrapassa o futebol e que se estende à imagem e à projeção internacional do nosso país.

Não significa que Portugal perca a sua capacidade de competir. Significa que deixa de contar com uma figura que, durante mais de duas décadas, foi simultaneamente jogador, capitão, símbolo e embaixador. Talvez seja este o momento de percebermos que as grandes referências não devem ser avaliadas apenas pelos seus últimos gestos, pelas suas fragilidades ou pelas circunstâncias em que terminam uma carreira. Devem ser avaliadas pela dimensão do caminho que percorreram e pelo que deixaram aos outros.

Cristiano Ronaldo não é perfeito. Nunca precisou de o ser para ser extraordinário. A sua história também tem excessos, momentos difíceis e decisões discutíveis. Mas nenhuma dessas circunstâncias apaga aquilo que construiu. A Seleção Nacional perde um capitão. Os portugueses perdem uma presença a que se habituaram. O futebol mundial perde um dos seus protagonistas mais marcantes. E os mais jovens perdem a oportunidade de continuar a ver, com a camisola de Portugal, alguém que lhes mostrou que os sonhos podem ser maiores do que o lugar onde nascemos.

A Federação Portuguesa de Futebol anunciou que pretende organizar uma homenagem à altura da sua carreira. É justo. É necessário. E deve ser uma homenagem que não pertença apenas ao futebol, mas a todos os portugueses. Porque há jogadores que passam pela Seleção. E há jogadores que ficam na história de um país. Cristiano Ronaldo fica.

A camisola 7 continuará a ser vestida por outros. Mas a história que ele escreveu nunca mais será repetida. Obrigado, Cristiano. Por tudo o que deste ao futebol. Mas, sobretudo, por tudo o que deste a Portugal.

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