– Mas limpar o remorso não é o mesmo que cortar um bocado da alma? – atirou Joaquim, dando um passo em frente. A proximidade de Pessoa dava-lhe quase um arrepio. Parecia um homem feito de sombra.
– Olho para estes becos e lembro-me da minha mãe. Do modo como limpava o pó lá de casa, com um pano que cheirava sempre a alfazema. Lembro-me de como eu achava que o mundo acabava no fim da nossa rua. Esse miúdo que eu fui ainda me pede contas hoje. Cobra-me as promessas que lhe fiz e que nunca cumpri. Ele vive cá dentro, Fernando. É o tal estranho do café. O tipo a quem minto todos os santos dias.
– Tu dizes que a morte é o rio, Fernando. Mas aqui em Alfama parece outra coisa. Parece o entulho das vidas que já não podemos viver. O eco dos passos que demos nos caminhos errados. Não sentes o peso do que não foste? A saudade não é um erro de escrita. É a prova de que fomos reais. Antes de virarmos espectadores da nossa própria desgraça.
Pessoa voltou a pôr os óculos. A barreira da inteligência subiu logo entre ele e o beco. Os olhos recuperaram aquele foco limpo, frio, que desarmava qualquer lamechice.
Olhou para o lado. Num nicho de azulejos na parede, havia uma imagem pequena de Santo António, iluminada por uma lamparina de azeite quase a apagar-se. Era a única luz viva naquela curva do beco. Um bocado de fé daquela gente, a contrastar com o ceticismo dos dois.
– O que não fui… essa é que é a minha substância, Joaquim – respondeu Pessoa.
– Sinto uma saudade terrível de tudo o que nunca vivi. Das mulheres que não amei, dos países onde nunca pus os pés, das carreiras que recusei por preguiça ou por lucidez. A literatura existe para celebrar o que faltou. O homem feliz, o gajo que bate certo com o passado e se conforta com as memórias de miúdo, não precisa de escrever uma linha. Limita-se a viver, a digerir e a morrer. Como as plantas.
O poeta parou, encostando-se à cal da parede.
– Se estamos aqui, a meio desta subida, é porque fomos corridos desse paraíso onde não se pensa. A memória, para nós, não é um espelho. É um caco de vidro partido. Corta-nos os dedos quando tentamos juntar os pedaços. Não procures o Fernando Pessoa original, meu amigo. Se me tirares as máscaras do Campos, do Reis e do Caeiro… se esvaziares aquele baú onde guardo os papéis, não vais encontrar um homem de carne e osso com saudades da infância. Não está lá ninguém. Encontrarás só uma cadeira vazia. E o som do vento a passar por uma janela aberta, lá na Rua de São Bento. A minha essência é não estar. Existo para que os outros possam ser através dos meus versos.
Continuaram a subir. O ritmo dos passos abrandou, quase fúnebre. O corpo cobrava o preço de uma noite inteira em claro. A colina parecia apertar-se à volta deles. As fachadas das casas vinham para a frente, tapando tudo, até reduzirem o céu a uma linha escura. Ali, a cidade velha cheirava a fado antigo e a velas baratas. Virou aquilo que o Joaquim temera desde o início: um confessionário de pedra. Um tribunal mudo onde as sentenças eram ditadas pelo silêncio.
Venceram as últimas escadas sob um nevoeiro cerrado que subia do Tejo. A bruma metia-se pelas ruelas, apagando o contorno das casas e transformando os candeeiros em globos de luz baça. Fantasmas. O labirinto medieval ficou para trás. Mas o peso do tempo continuava lá quando os dois alcançaram as muralhas do Castelo de São Jorge. Ali, no topo da colina, as pedras escuras erguiam-se contra o céu da madrugada como dentes partidos. Uma coroa velha. Um monumento à vaidade de impérios que o tempo acabou por roer.
A cal branca das casas de Alfama dava lugar ao granito e ao xisto escuro. Blocos maciços erguidos por mouros e cristãos. Mãos que o tempo pacificou através do desgaste, juntando na mesma ruína os inimigos de outrora. Joaquim chegou-se a uma das ameias partidas. Pousou as mãos na pedra fria, cheia de musgo gasto pela humidade da noite. Sentia os séculos de inverno na ponta dos dedos. Lá em baixo, Lisboa parecia um bicho adormecido no escuro. Um amontoado de telhados pretos. Ali de cima, a vida das pessoas parecia uma coisa minúscula, sem importância nenhuma ao lado daquela ruína toda. Um teatro abandonado.
– Olha para esta pedra, Fernando – disse Joaquim. Tinha a voz gasta, o arrepio da subida a dar-lhe cabo das pernas.
– Fizeram isto para durar sempre. Foi o centro de um império. Os reis vinham aqui acima olhar para o rio, a sonhar com o Oriente e com o ouro do Brasil. E o que é que sobrou de tanta ganância? Pedras soltas. Silêncio. Este nevoeiro que limpa tudo.
Afastou-se um passo da aresta, encolhendo os ombros dentro do sobretudo.
– Se até os impérios morrem e viram isto — passeios para turistas e desculpas para poetas tristes —, que sentido tem o nosso esforço? A nossa vidinha? Esta luta entre o que mostramos e o que somos… é só uma palhaçada de insetos num prédio que está a cair. O tempo não quer saber de caravelas nem das nossas angústias de café para nada. Vai tudo dar ao mesmo cinzento.
Pessoa aproximou-se da ameia ao lado. Não olhou para a cidade. Ficou a fixar uma racha profunda que rasgava o bloco de pedra de alto a baixo. Dali de dentro, uma plantinha brava teimava em crescer na terra que o vento ali tinha deixado. O poeta tirou o lenço do bolso, limpou a poeira das mãos com aquele jeito dele e respondeu. Tinha a voz fria de quem olha para as estrelas. Uma calma de quem já não se importava com o tamanho da História.
– O erro da História, Joaquim, foi achar que a grandeza tem a ver com o tempo que as coisas duram – disse Pessoa.
– Um império não é grande por durar mil anos. É grande porque, num bocado do tempo, a mentira dele foi tão forte que juntou a alma de milhões de homens debaixo do mesmo mito. A queda das civilizações é como o outono: tem de ser. Deu um toque no chapéu, abrigando-se do vento.
– O que seria de nós se os impérios não morressem? Ficávamos presos numa ordem eterna. Sem espaço para a decadência. E a decadência é a mãe de toda a arte bela. Roma caiu, a Grécia acabou, e este Portugal de que a malta tanto fala já não passa de um marinheiro velho a contar mentiras numa taberna do cais. Mas a cinza que ficou aqui é o adubo do nosso desassossego. O Álvaro de Campos só escreveu a Ode Marítima porque as caravelas já não saem do porto. Se elas ainda saíssem, ele seria um capitão de navio qualquer, ocupado com as caixas da mercadoria, sem tempo para sentir o mar. A ruína é que faz a poesia. Cantamos o que perdemos. Nunca o que temos na mão.
– Estás a poetizar a ruína, Fernando! — retorquiu Joaquim.
Virou-se para ele com uma cara de quase desespero, a tentar encontrar nos olhos do poeta uma fresta de revolta que justificasse a sua própria dor.
– Estás a transformar a tragédia em teatro. Mas quando as civilizações morrem, morrem línguas, saberes, amores que foram tão reais como os nossos. Quando este castelo cair de vez, quando Lisboa for só um monte de entulho ao lado de um rio seco, onde é que ficam os teus versos? Onde é que fica o teu fingimento? Se tudo vai dar à cinza, lembrarmo-nos das coisas passa a ser um castigo. Quero a certeza de que qualquer coisa fica. Que a nossa passagem deixa um risco na parede que o tempo não consegue apagar.
Pessoa sorriu. O clarão de um fósforo iluminou-lhe o rosto pálido por um segundo. Acendeu mais um cigarro. O fumo misturou-se com o nevoeiro da madrugada, sumindo-se no ar.
– Nada fica, Joaquim. E a beleza está aí – respondeu Pessoa.
– A imortalidade é uma invenção de homens cheios de medo do tamanho da noite. Um universo sem memórias é a única garantia de que novas mentiras possam nascer. Se o passado não morresse de vez, o presente era esmagado pelo peso das estátuas. Não queiras que as tuas palavras durem mais do que o som delas.
– O que morre em nós, o que morre nos impérios, é o que nos liberta para o mistério – disse Pessoa.
– A única coisa que importa não é o que se faz com pedra e soldados. É o que fazemos com o nosso bocado de tempo. É saber que tudo passa, e olhar para essa passagem de frente. Sem pedir meças ao tempo. Estas pedras onde estamos vão voltar a ser terra. Terra sem nome, livre desta mania dos homens de lhe chamarem pátria. A eternidade é um erro de vista. A beleza está no instante que vai morrer, mas que canta na mesma.



