CRIMES CONTRA TODOS NÓS

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Na manhã de sábado fui a um supermercado, em Lisboa. À porta deste havia um outro: traficantes e consumidores moviam-se com um despudor absolutamente extraordinário. Liguei para a PSP e expliquei que ali passavam famílias com crianças, pessoas mais velhas e aquele espectáculo era inaceitável. Pelo menos que ali passasse um carro da PSP para ter um efeito dissuasor. ‘Não temos pessoal’, afirmou o agente. E eu, incomodada, perguntei se estavam todos de prevenção para andarem à noite a bater em manifestantes. ‘Sim. Estão destacados para a noite’, disse o agente.

E estavam. O que se seguiu, depois de uma manifestação absolutamente pacífica, que juntou centenas de pessoas de todas as idades, tanto em Lisboa como no Porto, lá vieram os avisos do costume: não podem ter tendas. Porquê? Os polícias nem sabem responder. Só afirmam que cumprem ordens. Os mesmos polícias que se manifestaram na semana passada, por melhores condições de vida, não sabem o que defendem estes manifestantes? São seres acéfalos e incapazes de resistir a uma ordem que é um disparate? Quando acamparam, há tempos, alguém os proibiu de acamparem?

As cargas policiais terão feito, nas duas cidades, mais de 90 feridos, aguardando-se os números dos hospitais. Foram detidas 13 pessoas, agora acusadas do crime de desobediência.

Entre os feridos contam-se 13 polícias, sendo dez do Corpo de Intervenção e três à paisana que faziam parte de um grupo de quatro, que atuava na Avenida dos Aliados, no Porto. Vergonha das vergonhas, o grupo foi desmascarado pelos manifestantes e um dos polícias à civil foi filmado a apontar uma arma de fogo a quem se manifestava. A PSP, sem qualquer pudor, justificou como ‘dissuasão e legítima defesa’. Legítima defesa de quê, de manifestantes desarmados?

No Porto, foram detidas algumas Mães pela Acampada. Uma terá perguntado ao agente qual era a legitimidade. Não estava armada, nem agressiva. Não obteve resposta.

Em Lisboa, vários deputados participaram no protesto e nas negociações com a polícia, tendo em vista o retirar das tendas do Rossio. Acabaram a fazer uma barreira entre as forças policiais e os manifestantes. Pedro Delgado Alves e Eva Cruzeiro, do PS, Isabel Mendes Lopes, Jorge Pinto e Paulo Muacho, do Livre, e Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, não conseguiram parar a fúria da ‘obediência’ ao ministro Luís Neves e ao director da PSP.

Ricardo Sá Fernandes, advogado da Acampada, disse às televisões que vai avançar com uma acção judicial contra ambos, por abuso de poder. Pelo caminho da Justiça, não se sabe quando serão julgados. Os julgamentos contra os manifestantes serão, certamente, mais céleres.

Entretanto, os traficantes de droga continuam, alegremente, a ganhar dinheiro e a dar cabo da nossa sociedade…

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