Comprei duas casas, até hoje. A primeira ficou num divórcio e tive de comprar uma segunda. Fiz uma licenciatura e um mestrado. A licenciatura saiu-me cara, porque frequentei uma universidade privada, mas era a solução para conseguir estudar num regime pós-laboral. Trabalhava e ganhava o suficiente para pagar. Não conto isto por vaidade, mas porque me parece importante recordar que, apesar das dificuldades, havia uma relação entre o trabalho, o rendimento e a possibilidade de concretizar projetos de vida.
A democracia abriu portas. Com a democratização do ensino, a universidade deixou de ser um espaço reservado quase exclusivamente às elites. A possibilidade de estudar, adquirir conhecimentos e melhorar as condições de vida tornou-se mais acessível. Também os direitos laborais deixaram de ser uma concessão patronal para passarem a ser uma matéria de reivindicação e luta. Fui delegado sindical, fiz parte de conselhos de redação. Os jornalistas sempre foram avessos a greves, mas nos anos 80 fiz a primeira greve da RTP. Em 2002, voltei a lutar, desta vez contra a prepotência patronal e a má gestão na SIC. Não me arrependo de nenhuma dessas lutas. E não me lembro de ter precisado de autorização de um partido, de um comité central ou de uma comissão política para perceber o que estava mal e decidir que era preciso tentar fazer alguma coisa.
É por isso que olho com perplexidade para as tentativas de colar os protestos dos jovens a interesses partidários. Há sempre quem procure, por detrás de uma manifestação, a mão de um partido, a agenda de uma organização ou a estratégia de alguém que pretende tirar dividendos políticos. Pode acontecer. Mas essa obsessão em encontrar uma conspiração por detrás de cada movimento de contestação acaba por revelar uma dificuldade em aceitar o mais simples: as pessoas também são capazes de pensar pela própria cabeça, identificar os seus problemas e sair à rua para os denunciar.
Os jovens que hoje protestam pela habitação não precisam que alguém lhes explique que não conseguem pagar uma renda com o salário que recebem. Sabem-no por experiência própria. Não precisam de um partido para lhes dizer que a precariedade lhes rouba o futuro, que trabalhar não chega para ter uma casa ou que adiar indefinidamente a autonomia não é propriamente um projeto de vida. Basta-lhes olhar para as contas ao fim do mês.
A crise da habitação é evidente. Os salários, sobretudo os mais baixos, continuam a ser insuficientes para garantir condições de vida dignas. Quem ganha menos de mil euros mensais tem uma margem de manobra cada vez mais estreita, sobretudo quando uma parte desproporcionada do rendimento é absorvida pela renda de casa ou mesmo do quarto. E há um problema que vai muito além do presente: salários baixos significam também contribuições mais baixas e, amanhã, pensões mais reduzidas. Estamos a criar condições para uma crise social que não se limitará aos jovens de hoje. Acabará por atingir a sociedade inteira.
Perante este cenário, seria de esperar que a discussão se concentrasse nas razões do protesto e nas soluções possíveis. Mas não. Uma parte da conversa pública parece mais preocupada com o cabelo, os piercings, as roupas e os hábitos dos manifestantes do que com aquilo que os levou a acampar e a protestar.
Conheci isto antes. Ainda antes do 25 de Abril, um colega de escola foi detido por um agente da polícia por causa da roupa que usava: calças à boca de sino, camisa florida e um blusão com franjas nas mangas. Uma indumentária indecorosa, segundo os critérios da época. Hoje, ninguém deveria ser olhado de lado por usar piercings ou pintar o cabelo de azul. Felizmente não podem levar as pessoas para a esquadra por terem o cabelo verde, a lei já não dá cobertura a esse tipo de arbitrariedade. Mas a discriminação não precisa de estar escrita na lei para continuar a existir. Basta que permaneça na cabeça de quem confunde a sua ideia de decência com uma norma universal de comportamento.
As críticas à aparência dos jovens que participam nas acampadas são, em muitos casos, uma versão atualizada de velhos preconceitos. Como se o cabelo colorido, os piercings ou uma roupa pouco convencional retirassem legitimidade às reivindicações de quem os usa. Como se a apresentação pessoal fosse um certificado de competência cívica. E como se a irreverência fosse incompatível com a capacidade de trabalhar, estudar, constituir família ou assumir responsabilidades.
Aquele meu colega de escola é hoje gestor de empresas na indústria têxtil. Aquele blusão com franjas não lhe impediu a vida profissional, nem o condenou à marginalidade. Talvez fosse apenas um rapaz que se vestia de maneira diferente, antecipando modas que mais tarde se tornariam banais. A história é um bom antídoto contra a arrogância de quem julga conhecer uma pessoa pela roupa que traz vestida.
Há ainda as insinuações sobre o consumo de drogas nas acampadas. Suspeito de que muitas dessas observações vêm de pessoas que nunca frequentaram um festival de música ou que preferem esquecer o que por lá viram ou experimentaram. Ganza fumámos muitos, embora nem todos. Alguns preferiam o álcool, que tem a vantagem de ser uma droga legal e socialmente aceite. A distinção legal existe e não deve ser ignorada, mas a indignação seletiva diz-nos muito sobre os preconceitos de quem a manifesta. Há consumos que provocam escândalo e outros que, mesmo quando causam problemas graves, são tratados como parte normal da vida social.
A legitimidade de um protesto não depende da aparência dos manifestantes, dos seus gostos ou dos hábitos que têm na vida privada. Depende, antes de mais, dos problemas que denunciam e da razão que lhes assiste. E é isso que é preciso discutir de forma a encontrar as soluções possíveis.
52 anos depois do 25 de abril, depois de termos beneficiado dos avanços sociais e da liberdade política, parece-me estranho que alguém diga aos mais novos de que devem aceitar, em silêncio, condições de vida que tornam cada vez mais difícil construir um futuro.
Não sei se os jovens de hoje conseguirão conquistar aquilo que procuram. Sei que têm razões para lutar. E sei também que uma sociedade que começa por desvalorizar os seus protestos, depois ridiculariza a sua aparência e acaba a suspeitar das suas intenções corre o risco de nunca discutir seriamente o essencial.
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