António Dias, filho de António Dias Pires e de Theresa da Costa, casou na igreja matriz de Arganil no dia 18 de setembro de 1873 com Antónia Augusta Nogueira, filha de José Lourenço Nogueira e de Maria Theresa de Oliveira. Ele tinha 28 anos e ela, que nasceu em 1855, 18 o que, face à legislação da época, a considerava menor e obrigou a que seu pai e tutor desse autorização para que o matrimónio se consumasse.
No ano seguinte, António Dias deu início à construção de uma casa, situada naquela vila, na Rua Dr. Veiga Simões, número 6 e colocou sobre a verga da porta uma inscrição, em pedra, com a seguinte epígrafe: “1875 – A. DIAS”.

Estamos perante uma casa de construção corrente, com paredes exteriores de alvenaria de pedra argamassada com barro, composta por piso térreo, primeiro e segundo andares sobrepujados por um sótão.
USOS E COSTUMES
No piso térreo existiam dois compartimentos separados por “paredes” de taipa, neste caso de palha e barro a preencher o espaço entre os enxaiméis. Na primeira loja, guardava-se lenha já cortada e pronta a ser utilizada.
Na outra loja, a loja de dentro, como era conhecida, encontravam-se as pias e as talhas para colocar o azeite. As talhas, bastante grandes, eram de barro e as pias, uma de granito e a outra de pedra de Ançã tinham capacidade de 400 e de 300 litros, respetivamente. Também se encontravam aí, dependuradas no teto, umas tábuas onde eram colocados os queijos e a broa.
As queijeiras vinham, todos os sábados, a pé, de Santa Ovaia, com as cestas à cabeça. Traziam queijos, manteiga branca e manteiga amarela, bem como, no inverno, requeijão. O queijo comprado untava-se com uma mistura de azeite e colorau e colocava-se a secar nas referidas tábuas.
Também naquela dependência se fazia o sabão, amalgamando borras de azeite com potassa e colocando a mistura em formas de lata com formato de barra. Depois do produto estar seco, desenformava-se e cortava-se em nacos. Os arcazes do milho encostavam-se à parede e as talhas das azeitonas retalhadas ficavam ao lado.
Nas traseiras destas duas lojas existia um pátio que se encontrava sempre coberto de mato.
O primeiro andar albergava a cozinha, a sala de jantar e a sala de visitas. Como a casa não tinha quarto de banho existia um pequeno cubículo com uma espécie de banco corrido, onde se abria um buraco redondo que vazava diretamente para o pátio.
A cozinha, no início, devia ter tido lareira, posteriormente substituída por um “moderno” fogão de brasas, com duas fornalhas. As brasas vinham da serra, em sacos tapados com carqueja, à cabeça das carvoeiras. A par com esta estrutura existia um fogão de ferro, com a caldeira de bronze embutida. Todos os sábados a criada a fazia brilhar, esfregando-a com solarina.
Como não existia água canalizada, tornava-se necessário ir à fonte buscá-la, em cântaros de barro que, quando chegavam a casa, eram colocados na cantareira. Na cozinha existia ainda um alçapão por onde, quando um porco habitava o pátio, era lançada a comida para uma pia que lhe ficava na prumada.
Era nesta divisão que, semanalmente se amassava, numa gamela, a broa; uma mistura de farinha de trigo e de milho, a que se juntava água, sal e fermento. Antes de a deixar levedar retirava-se uma pequena porção de massa para uma tijela, cobria-se com farinha, e ficava a fermentar até à semana seguinte. Quando a massa estava leveda, a criada levava a gamela para o forno comunitário, tendia umas bolas e espetava-lhe uma palheta de lata, o sinal identificativo das broas da casa.
Na cozinha também, ao domingo, se preparava a barrela da roupa. Esta era dobrada e colocada numa bacia de zinco ou de cobre com lascas de sabão à mistura. Seguidamente, vertia-se sobre este preparado, de forma a ele ficar bem molhado, água a ferver. Na segunda feira, pala manhã, a criada colocava a bacia na cabeça e rumava à ribeira de Folques, a fim de aí lavar a roupa que, seguidamente, corava e secava.
Na sala de jantar, para além da mesa oval. de vinhático, e das respetivas cadeiras, existia um louceiro e um aparador, ambos com alçado.
Por sua vez, na sala de visitas encontrava-se um canapé de palhinha, duas cadeiras de braços e mais quatro (ou seis) de assento normal, uma mesa redonda pé de galo e uma mesa de encostar.
Como não havia luz elétrica, a iluminação era feita com azeite, utilizando candeias ou candeeiros de três bicos. Quando apareceu a iluminação a petróleo, na sala de visitas existia um candeeiro, belo exemplar com pé de mármore encrustado em metal amarelo.
No segundo andar localizavam-se os quartos. As paredes interiores eram todas de tabique, revestidas a escaiola de muito boa qualidade.
A casa terminava com um sótão esconso, coberto com telhas assentes num barrote central de onde partiam ripas. Guardavam-se lá as batatas e, numas grandes caixas de madeira cobertas com rede, as uvas.

A DESERTIFICAÇÃO HUMANA
O casal António Dias e Antónia Augusta Nogueira teve seis filhos; a mais velha, Elvira, nasceu a 11 de novembro de 1874 e foi batizada no dia 14 de janeiro do ano seguinte. Casou com José batista de Carvalho a 14 de maio de 1902.
Em 1896 Antónia Augusta Nogueira viu-se na necessidade de se deslocar a Lisboa, a fim de ser operada a um cancro intestinal ou a um mioma e acabou por morrer no bloco operatório. Enquanto se encontrava na capital a aguardar tratamento escreveu (já sabia ler e escrever) à filha Elvira várias cartas, dando as mais diversas instruções, sobretudo relacionadas com os afazeres caseiros e assinava as missivas com um pomposo Dona Antónia Augusta Nogueira. Esta filha e o marido herdaram a casa que tem o letreiro a sobrepujar a verga da porta de entrada.

A vista aérea que tem o sombreado amarelo dá para perceber melhor a dimensão da propriedade. Todo aquele quarteirão era meu. Vendi-o porque não tinha capacidade económica de o manter. A “casa do PS” necessitava de grandes obras de restauro e consolidação. Não vislumbrava possibilidade de, posteriormente, a alugar. A outra, com 16 assoalhadas, 4 casas de banho, 29 metros de frente, varandas, terraço e uma arrecadação que ocupava metade da casa, dava-me o rendimento do aluguer das lojas, mas pagos os impostos o que restava era insuficiente para obras de manutenção.
Os filhos não queriam ir para Arganil. Já não têm lá amigos. Os netos, muito menos. Não mora ninguém no centro da vila e eu quando ia para lá, ficava só naquele casarão e podia gritar à vontade, porque ninguém me ouvia. Tenho comigo um grande desgosto e, depois de me ter defeito das casas, nunca mais passei por aquela zona.





