À sua volta, Lisboa acontecia. O casario subia as colinas num amontoado de cal e pedra, mas para ele eram só formas sem sentido. O café era um recanto escuro. Quase uma trincheira contra a luz agressiva da tarde lisboeta. Ali dentro, o tempo parecia não avançar. Gelo. A atmosfera estava impregnada: tabaco velho, o frio do mármore e aquele cheiro a papel antigo dos livros que ambos traziam escondidos nos casacos.
Olhou para baixo. No mármore riscado da mesa, as marcas redondas das chávenas pareciam auréolas de galáxias que já morreram. Fantasmas de outros homens que se tinham sentado exatamente ali, a olhar para as mesmas janelas, a sentir o mesmo nó cego na alma. Depois, fixou-se nas mãos. Estendidas em cima da mesa, as unhas gastas. Pareciam-lhe estranhas, longe, como se pertencessem ao corpo de outra pessoa. Um manequim que continuava a mexer-se, em piloto automático, cumprindo os rituais exigidos para parecer um homem normal.
— Sinto-me estranho, Fernando. Uma coisa esquisita.
Joaquim confessou-o de cabeça baixa. Tinha a voz gasta de quem passou o dia a fingir, a engolir as mentiras normais do convívio social. Ali, naquela tarde suspensa sobre o Tejo, decidiu deitar as armas ao chão. Admitiu a sua maior derrota: andava a mentir ao tipo que vivia dentro dele. Não sentia o que era suposto sentir. No fundo, a sua própria existência parecia um erro. Havia um abismo entre o homem que ele achava que era e aquele que saía à rua todos os dias. Joaquim sentia-se um mero espectador. Um intruso na sua própria vida. E o pior é que isto não era de agora. Vinha de trás.
Desde miúdo que percebera o truque: moldava a voz a quem o ouvia e afinava o riso conforme a expectativa dos outros. O problema era quando ficava sozinho. Nessas alturas, não sobrava nada. Apenas um vazio enorme que a cabeça tentava preencher, sem sucesso.



