GUINÉ-BISSAU, À BEIRA DA VIOLÊNCIA POLÍTICA

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Úmaro Sissoco Embaló (USE) anunciou o regresso à Guiné-Bissau para 4 de outubro e pediu que a sua chegada decorra num ambiente de «harmonia, tolerância e respeito mútuo». É um apelo que deve ser levado a sério. Há ameaças no ar e desconfianças a pairar, refletidas nas redes sociais e confirmadas em conversas telefónicas com fontes próximas do processo político guineense.

Fontes em Bissau relataram ao Duas Linhas que houve forte discussão numa conversa telefónica entre o antigo Presidente e um líder político que foi seu apoiante, Braima Camará. Há rumores sobre desacordos entre o atual primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té e o Presidente deposto.  

À distância fica difícil distinguir entre o que é verdade e mentira, até porque a prática política na Guiné-Bissau sempre se pautou por alianças e desavenças sucessivas entre os vários líderes políticos.

Mas as evidências não são tranquilizadoras. Segundo vídeos publicados nas redes sociais, régulos da região de Biombo advertiram que, se algo acontecer a Ilídio Vieira Té, Sissoco Embaló «pagará com a mesma moeda». Sempre que surge este tipo de diálogo, lembramo-nos do que sucedeu a um antigo CEMGFA, Tagma Na Wai, assassinado num atentado bombista e a vingança nos dias seguintes que vitimou o Presidente da República nesse tempo, Nino Vieira.

É lamentável que a Guiné-Bissau persista na senda da violência política. As ameaças devem ser analisadas pelas autoridades judiciais. A Guiné-Bissau não pode entregar conflitos políticos à lógica da represália.

A ideia do Presidente deposto é regressar e voltar a candidatar-se nas eleições que deverão ser realizadas em 6 de dezembro. Será um caminho espinhoso e, pelos vistos, cheio de perigos. Mas Umaro Sissoco Embaló saberá no que se está a meter. Neste momento, nas atuais circunstâncias, ele parece não ter apoios suficientes para concorrer e vencer. Mas isso é hoje, e na Guiné-Bissau tudo pode mudar de um dia para o outro.

NOVAS CIRCUNSTÂNCIAS POLÍTICAS

Entretanto, surgiu um novo partido, o Partido Popular Guineense, liderado pelo atual primeiro-ministro. Nas últimas semanas tem havido muitas saídas de militantes de relevo de outros partidos políticos. Como não há coincidências, em Bissau todos dizem saber que essas pessoas estão a filiar-se no novo partido. O PPG promete ser uma força política de relevo, no rendilhado político-partidário guineense.

Já o PAIGC, o partido histórico da luta de libertação e que governou o país durante as décadas de regime ditatorial, foi desalojado da sede nacional, um edifício do tempo colonial na antiga Praça do Império e que o partido ocupava desde 1975. O edifício foi reclamado pelo Estado, que será o seu legítimo proprietário. A decisão é controversa, não apenas politicamente. Mas é evidente que o PAIGC está enfraquecido, com o líder exilado e acossado pela justiça.

Para os combatentes da liberdade da Pátria e para muitos outros guineenses, aquele edifício tem um significado histórico, ninguém esquece que foi o PAIGC que dirigiu a luta pela independência, mas hoje é um partido sujeito à lei como todos os demais, com igual direito a existir e a exercer oposição.

VELHOS RANCORES

Enquanto Presidente do PAIGC e Presidente da Assembleia Nacional Popular eleita, Domingos Simões Pereira (DSP) foi um dos principais adversários políticos do Presidente Embaló. A dissolução do Parlamento, a disputa em torno da legitimidade das instituições e a exclusão eleitoral do PAIGC e do seu líder marcaram esse confronto. A detenção de DSP ocorreu após o golpe de novembro de 2025, quando Embaló já havia sido afastado do poder. Quando o PAIGC atribui a decisão diretamente ao antigo Presidente, sem o provar, está a falsear a sequência dos acontecimentos.

O regresso anunciado também não apaga o passado. A Presidência de USE foi marcada por algumas detenções arbitrárias, agressões a manifestantes e intimidação de opositores que não deveriam ter acontecido e, tendo acontecido, deveriam ter tido investigação séria. Alegações relativas a mortes, corrupção, narcotráfico ou grupos armados exigem provas, apuramento de responsabilidades e direito ao contraditório. A justiça devia funcionar sem proteção política para uns e perseguição para outros.

Na eleição presidencial de novembro de 2025, Fernando Dias da Costa e a campanha de Embaló reivindicaram a vitória antes de serem anunciados resultados oficiais. O golpe subsequente impediu uma conclusão institucional pacífica daquele processo. É uma ferida que exige o esclarecimento dos factos eleitorais, não proclamações convenientes de qualquer dos lados.

O referendo constitucional de agosto também deixou uma sociedade dividida. Foram anunciados resultados provisórios favoráveis ao «sim», enquanto setores da oposição contestaram e boicotaram a votação.

Sissoco Embaló tem o direito de regressar ao seu país e de participar na vida política, nos termos da lei. Todos os atores políticos, individualmente ou agregados em partidos, têm o mesmo direito.  

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