Durante 15 dias, o wokismo da direita radical dominou o panorama político, os jornais e as pantalhas. Foram momentos de delírio. Momentos de uma verborreia infindável, uma alegria incontida. A ‘Nova Ordem’ estaria de regresso.
O entusiamo crescia com a certeza da vitória, na Suécia, do partido conservador aliado ao partido da extrema-direita. Seria a confirmação da onda ultraconservadora que se anuncia, empoderada, na Europa. Com os resultados das eleições na Suécia, ficaram com azia. O partido social-democrata ganhou as eleições e vai regressar ao poder, depois de quatro anos de uma experiência falhada do partido conservador. As notícias sobre esta eleição perderam interesse para os media.
A excitação voltou com a ‘vitória de Pirro’ num outro pequeno estado federado na Alemanha. Uma vitória pequena, mas que mantém o SPD no governo, em coligação com os verdes e outras forças de esquerda. Apesar desta crua realidade, os arautos da ‘nova ordem’ mantêm a narrativa da ‘estrondosa vitória da extrema-direita’.
Para os saudosistas existe outra sondagem que os anima, a que leva Marine Le Pen ao Eliseu. É evidente que não se pode enfiar a cabeça na areia e fingir que não existem condições objectivas e subjectivas para um crescimento das forças radicais de direita, como alternativa aos partidos democratas tradicionais. Mas também é notória a pulsão de direita radical, que anima a generalidade dos donos dos media e uma considerável lista de comentadores políticos. Será que o fazem em defesa das suas opções ideológicas ou por interesse meramente económico? E, quando fazem a propaganda da direita radical, apresentam propostas para os problemas sociais, habitacionais, económicos e securitários da Europa e do nosso País? Claro que não. Porque não possuem soluções e porque não querem.
O único objectivo é criar o caos e alcançar o poder para impor o fim do Estado de Direito e uma autocracia. A única solução que apresentam é a deportação em massa dos emigrantes, sem explicar as consequências que tal terá para a economia.
A verdade é que os problemas existem, são graves e a responsabilidade é de todos os governos e da total incapacidade da Europa para dar resposta a uma questão: como conciliar crescimento económico, necessidade de mão-de-obra numa Europa em declínio demográfico, fluxos migratórios, multiculturalismo, ecumenismo, falta de habitação digna, lucros das empresas e concorrência de algumas das potências que integram os BRICS e que possuem factores de produção bem mais baixos.
Dito isto, admito que não será fácil resolver esta quadratura do círculo. Tem solução? Tem, mas será necessária coragem política e vontade dos cidadãos europeus para entenderem que o mundo mudou, as circunstâncias mudaram, e que é necessário sacrificar algum do bem-estar alcançado nos últimos 70 anos, à custa dos salários baixos dos países do terceiro-mundo. A China lidera o processo de mudança mundial, ancorada num regime autocrático que impede qualquer contestação. A generalidade dos países dos BRICS são regimes autocráticos ou com democracias formais. A alternativa para os cidadãos Europeus será a de perderem o Estado de Direito e o bem-estar económico.
A coragem política dos dirigentes é coisa que não abunda, nem em Portugal, nem, com algumas excepções, na generalidade da Europa. A vontade dos europeus em encararem a realidade muito menos. E, sem coragem e sem vontade para tanto, o resultado será inevitável. Como já escrevi no Duas Linhas, ‘chegados aqui, a pergunta clara é esta, os europeus querem uma Europa forte, num Mundo multipolar, um espaço de liberdade e de democracia e um dos vectores e ponto de equilibro desse multipolarismo, ou querem uma Europa autocrática, dividida e refém dos Estados Unidos, num Mundo bipolar, com dois centros de poder, um em Pequim e outro em Washington?’
A escolha não é fácil, uma vez que a Europa atravessa uma forte crise social, económica, moral e cultural, e está dilacerada por pulsões radicais, o que impede um debate com racionalidade e objectividade.
No nosso País, os ‘sonhos molhados’ de alguns sectores da comunicação social e do comentariado apontam para uma vitória do Chega e André Ventura como primeiro-ministro. As entrevistas ao líder daquele partido, em horário nobre, são quase diárias. Em todos os canais televisivos, o espaço noticioso é controlado e dominado pelos adeptos do partido radical de direita e o alinhamento das notícias não é inocente. Até nos programas de entretenimento, em manhãs com o público-alvo da chamada terceira-idade, se acentua um aumento da criminalidade e da violência, como se Portugal vivesse um clima de impunidade sem controlo. A motivação é evidente, causar pânico, acentuar a necessidade de ‘mão de ferro’ e do reforço dos poderes dos órgãos de polícia criminal.
O caminho está a ser feito, aberto à descarada para levar ao poder o Chega e André Ventura. O desastre para o nosso País será tenebroso. Cabe, a quem discorda, chamar os ‘bois pelos nomes’, porque ‘enquanto houver estrada pra andar a gente vai continuar, enquanto houver ventos e marés, a gente não vai parar’.



