HISTÓRIAS DA MINHA GUITARRA

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Uma das minhas raparigas lembra-me uma história bem antiga: eu a aprender (malzinho) a tocar guitarra em Lisboa, depois de anos de piano no Porto. Muito jovem, quase recém-chegada. Aqui, acolá e além, nos sítios onde tanta gente se encontrava para beber uns copos, discutir ideias e cantar, partilhei várias vezes a dita com o Jorge Palma. Possivelmente desesperado pelo tão mal que eu tocava, ele dizia: ‘Oh rapariga, passa para cá o instrumento!’, e eu lá passava. O que nas minhas mãos era um sacrifício de cordas e dedos, nas dele era uma maravilha.

O tempo e a vida afastaram-nos. Ele tocava e (en)cantava. Eu só teclava nas máquinas de escrever e, mais tarde, nos computadores.

Muitos depois, já com as meninas, uma delas seguramente muito melhor ‘tocadora’ do que eu, levou a guitarra para a faculdade e chegou eufórica: ‘O Jorge Palma tocou nesta guitarra’. E eu a responder: ‘Só voltou a ela’. E voltou algumas vezes… A guitarra continua aqui, bem guardada, num canto ao lado do meu piano.

Jorge Palma morreu. Num podcast da BLITZ, em 2023, afirmou: ‘Canto aquilo que sinto e penso, no fundo sou um cronista’. Verdade! Mas foi muito mais do que isso: é a voz de várias gerações. Obrigada pelo que nos deu, nos dá e, seguramente, nos vai continuar a dar. Porque para honrar essas vozes, essa voz, é preciso continuar.

Podia acrescentar a vergonha alheia que sinto do presidente da Câmara de Lisboa. Mas nem me apetece.

Esta é a minha história. A da minha Cláudia é esta: Hoje de manhã morreu mais um bocadinho da minha juventude. Isto dito assim parece que tenho 80 anos, mas pronto. Recebi a notícia da morte do Jorge Palma e a minha cabeça rapidamente viajou até aos Açores, em 2007. Há pessoas e momentos que achamos que são eternos, até deixarem de o ser.

Quando entrei para a Tuna da Faculdade de Ciências e quis aprender a tocar guitarra, a Margarida emprestou-me a dela. A guitarra era muito antiga (quase 30 anos. Eu com 18 ou 19. E veio a história: o Jorge Palma já tocou nesta guitarra! Não me lembro dos pormenores.

Há idades em que achamos que 30 anos é uma enormidade de tempo. E eu estava platonicamente apaixonada pelo Jorge Palma. Ouvia a discografia dele até à exaustão, achava-o (e acho) um génio da poesia, não no sentido intelectual, mas na forma despretensiosa como entra no ouvido das pessoas e as desarma. Acontece que também era muito tímida.

No Verão de 2007 vou ao Pico com a Vicentuna, levo a bela da guitarra e há um dia em que estou a passar num largo, reparo numa esplanada no meio da rua, e quem está sentadinho a fumar o seu cigarro rodeado de amigos/músicos? Pois era ele!

Olhem, eu ia morrendo. Nunca fui destas coisas de ter heróis fora de casa. Mas eu estava mesmo apaixonada pelo homem, nervos! E mais! E não é que ele, vendo-me a passar com a guitarra, me chamou (oh my god) e me pediu a guitarra emprestada? Claro, emprestei de imediato e o que quer que fosse fazer ficou para segundo plano.

Trocámos meia dúzia de palavras, das quais não me lembro porque NERVOS! Não me lembro se lhe disse: Olha, tu já tocaste nesta guitarra há 30 anos! Não me lembro. E nem me vou esforçar porque o nosso cérebro faz esta magia de preencher espaços vazios e ainda estaria aqui a inventar algo que não aconteceu. Desculpem este fim meio sem graça. Mas é o que há, a personagem que eu era na altura não dava para mais, não ter desmaiado já foi uma vitória. É isto. Eu às vezes tenho a sensação de que a vida, o universo, o que quer que seja, se encarrega de nos oferecer estas micro coincidências, mini presentes para nos deixar mais quentinhos. Mas é só uma sensação, depois passa. Depois voltamos à fila do pão, em que tens mesmo que andar, não podes olhar para trás ou lá tens alguém a fazer-te sinal para avançar, porque, enquanto houver pernas para andar, a gente vai ter mesmo que continuar.

(em coautoria com Cláudia Duarte)

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