A propósito do recente incidente em que uma turista sueca foi inadvertidamente baleada na Baixa de Lisboa, o bastonário da Ordem dos Advogados, João Massano, falou da insegurança na zona e apontou o Largo de São Domingos como exemplo. À porta da própria Ordem, disse, existe diariamente um “mercado” de rua, chegando a dizer que ali seriam vendidos bens “provavelmente roubados”. Esta afirmação tem de ser esclarecida: uma coisa é existir comércio informal; outra, bastante diferente, é afirmar que se trata de um mercado de produtos roubados. Essa afirmação carece de prova.
O que existe naquele largo não é propriamente uma novidade lisboeta. Há séculos que se vende e se compra naquele pedaço da cidade. O convento de São Domingos começou a ser construído em 1241 e, ao longo dos séculos, o espaço em redor transformou-se num dos grandes lugares de circulação, encontro, feira e comércio da cidade. Em 1688, Frei António do Rosário escreveu que a “feira de Lisboa” se fazia, às terças-feiras, precisamente defronte do templo de São Domingos. E há registos da chamada Feira das Bestas, no século XVIII, ali mesmo. Mais tarde, o comércio da zona haveria de se prolongar pelo Rossio, pela Praça da Figueira e por toda a Baixa.
O pequeno mercado informal que hoje se encontra no Largo de São Domingos, de roupa e calçado usados, alimentos e produtos trazidos sobretudo dos países africanos de expressão portuguesa, particularmente da Guiné-Bissau, pode, portanto, ser visto também como uma manifestação contemporânea de uma velha característica daquele lugar: gente que se encontra, gente que circula e gente que vende coisas. A própria Câmara de Lisboa reconhece o Largo como um ponto de encontro regular das comunidades guineense e cabo-verdiana. Há uma razão para essas pessoas estarem ali: o lugar tornou-se, ao longo de décadas, um espaço de sociabilidade africana em Lisboa.
Não significa isto que todo o comércio ambulante seja legal, nem que não possa haver ali produtos de proveniência ilícita. A polícia que investigue. Mas transformar uma pequena actividade comercial informal num mercado de produtos “roubados” sem apresentar provas é outra coisa. E talvez seja curioso lembrar, antes de se olhar para aquele comércio como um sinal da decadência de Lisboa, que São Domingos e o Rossio nasceram, cresceram e ganharam importância precisamente como lugares de gente, de passagem, de encontro, de feira e de comércio. O mercado pode ter mudado de produtos e de vendedores. A cidade continua a fazer ali aquilo que faz há muitos séculos: juntar pessoas.
O vídeo:



