FINALMENTE, ALGUMA INDIGNAÇÃO

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Durante anos, a Europa explicou-nos, com a solenidade própria dos comunicados diplomáticos, que os colonatos israelitas na Cisjordânia são ilegais. Disse-o enquanto Israel os multiplicava, ocupava terras palestinianas, expulsava populações e tornava cada vez mais improvável a solução dos dois Estados. A Europa condenava. Israel continuava. E no dia seguinte tudo permanecia praticamente igual, excepto para os palestinianos para quem tudo piorava.

Agora, finalmente, a indignação chegou à alfândega. Reino Unido, França e Canadá decidiram restringir a entrada de produtos provenientes dos colonatos e outros nove países, incluindo Portugal, anunciaram que farão o mesmo, apoiarão medidas europeias ou estão seriamente a ponderá-lo. Não deixa de ser de uma tristeza titubeante, mas é um primeiro sinal. Não é ainda um boicote a Israel e o impacto económico directo será provavelmente pequeno. Não é a economia israelita que vai tremer porque algumas tâmaras, vinhos ou produtos agrícolas deixam de entrar.

Mas o que começa a mudar é a ideia de que se pode considerar uma coisa ilegal e, simultaneamente, continuar a negociar com ela como se fosse perfeitamente normal. Durante anos, a Europa praticou essa confortável duplicidade: declarava ilegal a ocupação, mas não fazia nada que pudesse incomodar verdadeiramente o ocupante.

É por isso que esta decisão merece atenção. Vale pelo precedente que cria. Se a ilegalidade dos colonatos começar a ter consequências comerciais, amanhã poderão ser discutidas outras consequências. E, nesse dia, Israel já não estará apenas a ouvir a Europa dizer que desaprova a ocupação. Começará a perceber que, finalmente, algumas palavras podem ter chegado ao lugar onde costumam doer mais: às relações económicas. Claro que enquanto a coisa se discute nos salões das chancelarias, os palestinianos continuam a morrer… Esperemos que haja um dia para cobrar essa fatura.

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