A CRISE DA PALAVRA E O EMPOBRECIMENTO DO DIÁLOGO

Há crises que se medem em números. Outras não aparecem nas estatísticas, não têm gráficos nem indicadores económicos que permitam avaliar a sua dimensão. São crises mais silenciosas, mas nem por isso menos profundas. Uma delas atravessa hoje a sociedade portuguesa: a crise da palavra.

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Falamos muito. Talvez nunca tenhamos falado tanto. Escrevemos mensagens, comentamos notícias, publicamos opiniões, discutimos nas redes sociais, participamos em debates. Temos à nossa disposição mais palavras do que nunca. E, no entanto, parece que estamos cada vez mais longe de nos entendermos.

Porque falar não é necessariamente comunicar. E comunicar não é apenas dizer aquilo que pensamos. Comunicar pressupõe também a disponibilidade para escutar aquilo que o outro pensa. É precisamente essa disponibilidade que parece estar a desaparecer.

A palavra deixou de ser encontro

Durante muito tempo, a palavra foi uma das principais formas de aproximação entre as pessoas. Conversava-se à mesa, no café, no trabalho, na rua. As opiniões podiam ser diferentes sem que essa diferença significasse imediatamente uma ruptura. Havia discussões, naturalmente. Havia divergências e até conflitos. Mas havia também uma coisa essencial: havia tempo para ouvir.

Hoje, esse tempo parece cada vez mais curto. Respondemos antes de compreender. Julgamos antes de conhecer. Interrompemos antes de ouvir. E, sobretudo, confundimos frequentemente discordância com hostilidade. A consequência é uma sociedade onde muitas pessoas já não procuram compreender o argumento do outro. Procuram apenas encontrar a resposta que lhes permita vencê-lo. O diálogo transforma-se, assim, num combate. E quando toda a conversa se transforma num combate, todos acabam por perder.

A política é apenas o espelho

É fácil atribuir esta degradação do diálogo à política. Mas seria demasiado simples. A política apenas tornou mais visível um fenómeno que atravessa a sociedade inteira. O discurso público tornou-se mais agressivo. As frases são cada vez mais curtas. As posições são apresentadas como verdades absolutas. O adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém que devemos desqualificar.

Já não basta dizer: “Não concordo consigo.” É preciso dizer: “Você está errado.” E, muitas vezes, chega-se ainda mais longe: “Quem pensa como você é parte do problema.”

É uma mudança profunda. Porque uma democracia não vive apenas da possibilidade de cada cidadão falar. Vive, sobretudo, da capacidade de cidadãos diferentes continuarem a falar uns com os outros. Sem isso, a democracia pode conservar as suas instituições e perder, pouco a pouco, a sua cultura.

A ditadura da resposta imediata

As redes sociais trouxeram uma enorme democratização da palavra. Qualquer pessoa pode hoje publicar uma opinião e ser lida por milhares. Isso é, em muitos aspectos, extraordinariamente positivo. Mas trouxe também um problema novo: a valorização da reacção imediata.

Tudo exige resposta. Uma notícia. Uma declaração. Um erro. Uma frase. Uma fotografia. Uma polémica. Temos de reagir já. E quem reage primeiro parece ganhar.

Só que pensar exige tempo. Escutar exige tempo. Reconhecer que podemos estar errados exige ainda mais. Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja precisamente esta: voltámos a ter liberdade para falar, mas estamos a perder a capacidade de esperar antes de falar. E uma sociedade que não sabe esperar dificilmente consegue pensar.

Quando a opinião se transforma em identidade

Existe ainda outro problema. Muitas pessoas já não defendem apenas ideias. Defendem identidades. A sua opinião política, social ou cultural passa a fazer parte daquilo que entendem ser a sua própria identidade. Por isso, quando alguém contesta uma ideia, sentem que está a contestar a própria pessoa. E então a conversa deixa de ser racional.

Se discordas de mim, estás contra mim. Se estás contra mim, és meu adversário. Se és meu adversário, já não preciso de ouvir-te. É assim que se constrói o silêncio no meio do ruído. Todos falam. Poucos escutam.

O perigo de uma sociedade sem conversa

Uma sociedade pode sobreviver a muitas divergências. O que dificilmente consegue suportar é a impossibilidade de dialogar sobre elas. Portugal sempre foi um país de contrastes, de diferenças e de opiniões diversas. Isso não é uma fraqueza. É uma riqueza.

O problema começa quando deixamos de considerar a diferença uma parte normal da vida colectiva. Uma democracia não precisa de cidadãos que pensem todos da mesma maneira. Precisa de cidadãos capazes de viver juntos apesar de pensarem de maneira diferente. Essa talvez seja uma das grandes aprendizagens que estamos a esquecer.

O outro não precisa de pensar como eu para merecer ser ouvido. Não precisa de ter razão para que eu tente compreendê-lo. E eu não perco a minha razão por admitir que talvez ele tenha alguma.

Recuperar o valor da palavra

Talvez Portugal precise, antes de mais, de recuperar o valor da palavra. Não da palavra como arma. Da palavra como ponte.

Precisamos de voltar a conversar sem transformar todas as conversas em julgamentos. Precisamos de reaprender a discordar sem humilhar, a criticar sem destruir e a defender as nossas convicções sem negar ao outro o direito às suas. Precisamos também de devolver algum silêncio à nossa vida pública. Porque o silêncio não é necessariamente ausência de pensamento. Às vezes, é o espaço onde o pensamento começa.

Talvez devêssemos ensinar às novas gerações que saber falar é importante, mas saber ouvir é uma forma ainda mais elevada de inteligência. E talvez devêssemos lembrar aos mais velhos – que tantas vezes acumulam experiências que a sociedade já não parece interessada em escutar – que a sua palavra continua a ter valor.

Uma sociedade envelhece verdadeiramente não quando aumenta a idade média dos seus cidadãos, mas quando deixa de escutar a experiência que eles transportam.

Portugal precisa de voltar a conversar

Não precisamos de concordar mais. Precisamos de conversar melhor. Precisamos de recuperar a ideia simples de que uma sociedade não se constrói com milhões de monólogos. Constrói-se com diálogo. Com perguntas. Com dúvidas. Com argumentos. Com capacidade para mudar de opinião. Com a humildade de reconhecer que ninguém possui sozinho toda a verdade.

Portugal não está condenado à agressividade do discurso público, à superficialidade das redes sociais ou à transformação permanente da divergência em conflito. Mas terá de escolher. Entre continuar a falar cada vez mais alto ou começar novamente a ouvir. Entre a palavra que separa e a palavra que aproxima. Entre o ruído e o diálogo.

Talvez uma das tarefas mais importantes do Portugal dos próximos anos seja precisamente esta: reaprender a conversar. Quando uma sociedade perde a capacidade de dialogar, não perde apenas a qualidade da sua linguagem. Perde, pouco a pouco, a capacidade de construir um futuro comum.

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