VIGÁRIOS

Desde criança que oiço falar dos «contos do vigário». Não tinha lá muito bem a ideia de quem era o Vigário, mas cedo compreendi que vigarice se referia sempre a aldrabice pegada. Recentemente, porém, dei atenção a duas magníficas versões modernas desses contos.

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Vigário, para mim, era assim um senhor importante, de cargo público. Quiçá, até, sacerdote, porque ouvia referir por vezes «o senhor vigário» e eu achava que era o prior da freguesia. Pelo que ouvia falar desses contos, imaginei ser o vigário homem de boas falas, capaz de bem levar a água ao seu moinho.

As notícias veiculadas pelos canais televisivos ainda o retratavam recentemente como alguém que, fazendo-se passar por médico, funcionário da câmara ou, até, membro de uma instituição religiosa, abordava as pessoas (nomeadamente idosas) na rua ou à porta de casa e logravam impingir uma peta qualquer, susceptível de com ela caçarem, por exemplo, dinheirinho longamente aconchegado numa gaveta escusa…

Foi, por isso, com enorme surpresa e não menor admiração (sincera mesmo!), que tomei o pulso a dois muito bem engendrados contos, quase em jeito de novela. Apareceram-me de supetão, um depois do outro, assim sem mais nem menos quando abri o Facebook. Duas histórias lindas, contadas a rigor, com todos os pormenores, vírgulas e outra pontuação toda no devido sítio, que até dava gosto ler! Os apontamentos curiosos sucediam-se, a prender a atenção – quase em jeito desses reels que, hoje, a cada passo nos martirizam. Como é que esta história vai acabar? – ocorria perguntar, parágrafo após parágrafo. E a curiosidade aumentava, aumentava…

A primeira história que me surgiu é a do puto órfão de pai e mãe que, devotadamente, sendo neto único, se disponibiliza a tratar do avô quase paralítico já. Apesar de ter ganhado bolsa e ter nota para entrar no Técnico (é lógico, fizera a pulso e com êxito os estudos anteriores), opta por, diariamente, tratar da higiene do avô.

Um dia, porém, surge o milagre: um senhor doutor médico, que até deixara a medicina convencional para, abnegadamente, desenvolver uma pomada (outrora falava-se em “banha-da-cobra”), que, aplicada à maneira, rapidamente transformou o avô decrépito no homem que voltou a conduzir agilmente o seu 4L, há anos parado ali. Milagre!

No final da história, assim como quem não quer a coisa, indicava-se de soslaio o acesso a uma página. Acedi. Comprava-se uma embalagem por 29 € sem portes, pagos, no acto de entrega da encomenda, de que, poucos instantes depois de encetada a conversação telefónica, se vinha a saber que o êxito só era garantido após tratamento de cinco embalagens, ou seja, após se terem desembolsado 5 x 29 €! Embalagem única não se vendia.

A segunda história traz também imagens. Não a do Senhor Doutor Médico da outra, porque o assunto é bem diferente.

À senhora (sim, vem a fotografia dela) e respectivo cônjuge (imaginamos) deu-lhes na veneta de irem passar uma noite inesquecível em hotel de luxo. Vem mesmo o nome famoso, quase lendário (tinha que ser!): Ritz!

Os ingredientes da noite são contados ao pormenor (sim, aqueles passíveis de ser contados); a bebida extraordinária; a iluminação exótica; os cómodos; os acepipes; o roupão passível de ser adquirido por 300 €; o banho em condições únicas e, sobretudo – sobretudo! – aquele afago da toalha em que a menina se enxugou. Que toalha, senhores! Que fibra maravilhosa! Que aconchego! De nos sentirmos num céu estrelado e lindo!…

E por aqui me fico nesse enlevo, porque – como se imagina – no final vem indicado o acesso à página da firma fornecedora – única e em exclusivo! – dessa toalha, insuspeitada fonte de prazer! Que inaudita macieza, senhores!

Resisti (confesso) à curiosidade e fiquei sem saber quanto custava a toalha e quantas teria de comprar para, mesmo sem me hospedar no Ritz, poder gozar do seu afago meigo, após a banhoca inesquecível, única!…

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