Arrepiar-nos-á a muitos verificar, por exemplo, no concurso televisivo Joker, um concorrente desconhecer quem foi o ministro do rei Dom José I que superintendeu na reconstrução de Lisboa, após o terremoto; não saber em que data esse terremoto ocorreu.
Não me refiro apenas a dados históricos, mas também a aspectos concretos da vida quotidiana. Cada vez se troca menos correspondência por via postal. Não admira, por isso, que se desconheça a possibilidade de, na correspondência externa, se fazer anteceder o código postal da sigla do país de destino. Assim, quando se dá para o estrangeiro o nosso código postal deve-se fazê-lo preceder de P: P-2027-700.
O que habitualmente acontece é que também o nosso correspondente não consciencializa o significado do P e, na resposta, não hesita em incluir o P e, no fim do endereço, pespega PORTUGAL com todas as letras.
Também o desconhecimento da geografia portuguesa é flagrante no referido programa. Se determinada localidade fica no Norte ou no Alentejo; de que rio é afluente o Zêzere…
Não é estranho – ou talvez seja apenas vontade de simplificar – ouvires perguntar ao teu colega da Universidade de Coimbra que vai de fim de semana para Loures:
– Já vais, então, até Lisboa, não?
Loures não é Lisboa.
Como acerca de um teu familiar que vive em Penge, localidade dos arredores londrinos, tu respondas, para maior facilidade: «Está em Londres». A grande cidade engole os arredores na conversação diária.
Estranho me pareceu, porém, por vir de quem veio, o endereço aposto na encomenda de livro que fizera a um livreiro de Vila Nova de Gaia. Veio escrito: Cascais – Lisboa.

Nesse aspecto das moradas, confesso que ri a bandeiras despregadas quando a secretária de um vereador municipal, a quem pelo telefone eu ditara “Rua Egas de Moniz 79”, enviou o convite para o número 70 i 9. Secreta influência, quiçá, de recente estada no Reino Unido, onde o código postal se apresenta, de facto, assim estranho: SE20 8RL.
É consensual ser o uso militante dos signos ditos emojis pela grande maioria da população (gente culta incluída) o grande responsável pelo progressivo abandono do vocabulário concreto, num aparente retorno à escrita hieroglífica dos egípcios antigos…

Às vezes. até me interrogo se haverá vergonha em expressar claramente sentimentos fortes, se é que se sabe exatamente o que tais signos querem dizer. Assim, uma face sorridente, ornada de três corações bem vermelhos, quer dizer «Amo-te apaixonadamente!». E tanto quem envia como quem recebe terá real consciência de declaração amorosa tão ardente?
Enfim, começámos por falar de programa político republicano a privilegiar a instrução, uma política de pés assentes na terra, de maior atenção à vida quotidiana e, sem disso quase nos apercebermos, acabámos por ser atraídos por sinais muito usados agora e cujo significado, se autêntico, assim se prefere representar, e não exprimir por palavras – na impressão de que estas foram perdendo o sentido. Perderam?



