UM PAÍS À PROCURA DE SI PRÓPRIO

Há países que parecem saber exactamente quem são. Portugal não é um deles. Talvez essa seja uma das nossas maiores fragilidades. Ou talvez seja, paradoxalmente, uma das razões da nossa sobrevivência. Este é o primeiro texto de uma série sobre "UM PAÍS À PROCURA DE SI PRÓPRIO".

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fotomontagem com grafismo


Somos um país antigo, com uma história que atravessou séculos, continentes e oceanos. Fomos capazes de partir quando quase ninguém sabia ainda que o mundo era tão grande. Levámos a nossa língua, os nossos costumes e a nossa maneira de olhar o mundo para lugares distantes.
Mas continuamos, tantas vezes, sem saber muito bem o que queremos fazer com o país que construímos. Portugal vive uma contradição curiosa: orgulha-se muito da sua história, mas parece ter dificuldade em transformar esse património em futuro.

Falamos dos Descobrimentos, de Camões, de Pessoa, da Revolução de Abril, da democracia e da nossa capacidade de adaptação. Celebramos a gastronomia, o vinho, o turismo, o mar e a cultura. Somos frequentemente elogiados pela nossa capacidade de acolher, pela segurança, pelo clima e pela qualidade de vida. E, no entanto, há qualquer coisa que não encaixa.

Um país não pode viver eternamente daquilo que foi, nem apenas daquilo que os outros dizem que ele é. Tem de saber aquilo que quer ser.
E talvez seja essa a pergunta que Portugal precisa de fazer a si próprio neste momento: que país queremos deixar às gerações que vêm depois de nós? Não é uma pergunta meramente económica. É uma pergunta política, social, cultural e, acima de tudo, humana. Queremos um país onde os jovens tenham de partir para encontrar oportunidades? Um país onde envelhecer seja cada vez mais uma forma de exclusão? Um país onde Lisboa e algumas zonas do litoral concentrem riqueza, emprego e investimento enquanto uma parte crescente do território perde população e esperança? Queremos continuar a aceitar que tantos dos nossos melhores jovens estudem, se formem e depois procurem fora aquilo que Portugal não lhes consegue oferecer? E queremos continuar a tratar a cultura como se fosse um adorno, a educação como uma despesa e a experiência dos mais velhos como uma espécie de peso social?

Não acredito que Portugal esteja condenado a ser assim. Mas também não acredito em optimismos fáceis. Portugal precisa de uma nova ambição. Uma ambição que não seja feita de discursos grandiosos, mas de escolhas concretas. Que coloque a educação no centro, que valorize a ciência, a cultura e o conhecimento, que devolva dignidade ao trabalho, que olhe para o interior do país, que cuide dos mais velhos sem abandonar os mais novos e que compreenda finalmente que a longevidade não é um problema: é uma conquista da civilização.

Precisamos também de recuperar uma coisa talvez ainda mais importante: a confiança em nós próprios. Não aquela confiança arrogante de quem acredita que somos melhores do que os outros. Mas a confiança tranquila de quem sabe que pode fazer melhor. Portugal já demonstrou muitas vezes que consegue. Falta-nos talvez transformar a capacidade de resistir na capacidade de construir.

Esta nova série nasce precisamente dessa inquietação. Não pretende dar lições a Portugal. Nem fazer a contabilidade dos seus fracassos.
Pretende olhar para o país com os olhos de quem o conhece, o ama e, por isso mesmo, não aceita desistir dele. Porque Portugal não é apenas o território que habitamos. É a memória que recebemos, o presente que estamos a construir e, sobretudo, o futuro que deixaremos aos outros. E esse futuro ainda não está escrito. Talvez esteja na hora de começarmos a escrevê-lo.

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