A COSTA DA LUA

Onde vos escrevo domina a penumbra e uma frescura que roça o frio, tudo muito artificial, claro. Na cidade estabeleceu-se uma certa modorra que assinala o início das férias e que lhe retira uma fatia significativa da população. Mas lá fora brilha o sol e, de vez em quando passa uma sereia dos tempos modernos, suficientemente despida para despertar um olhar, mesmo fugaz. Vulgaridade em vez de beleza. Talvez tudo isto sirva para evocar o mar e o sol, agora que o Verão se instalou e clama pela quase obrigação do grande êxodo para o litoral.

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O Cabo da Roca, visto da Ericeira, num dia azul pleno

Vou lembrar uma parte desse litoral, a que chamarei a Costa da Lua, apesar das múltiplas referências que já fiz ao sol e aos seus efeitos, nem sempre benéficos, uma costa de que o velho Plínio contou uma saborosa história de Sereias e Tritões, algures na zona vizinha do Promontório Magno, o nosso Cabo da Roca, que para os Antigos era o extremo não da Europa, embora Plínio o sugira, mas sim do Monte da Lua, a esplendorosa e ainda algo misteriosa, como então, Serra de Sintra. Assim lhe chamou Ptolomeu, há quase dois mil anos: Σελήνης όρος άκρον.

Para simplificar, precisarei geograficamente a Costa da Lua entre a Roca e as Ilhas Berlengas, Londobris na Antiguidade, as Ilhas do Mar Revolto, topónimo que sugere uma povoação Londobriga nas proximidades. Seja como for, daí para cima entravam Fenícios, alguns Gregos e depois os Romanos, num mar que já nada tinha do pretensamente suave Mediterrâneo, mar de vizinhança como o classificou Pedrag Matijevic, de que Olisipo no estuário do Tejo era, na verdade, o último porto. Para quem duvidar destas presenças, sobretudo da primeira, lá se encontrou um pesadíssimo cepo de âncora em chumbo, de um navio oceânico, do século V ou IV a.C. Nesta costa situa-se um triângulo definido por balizas, para utilizarmos uma linguagem marítima, da minha vida passada: a Praia Grande, Sintra e, um pouco mais a norte, a Ericeira. Deveria lembrar também São Miguel de Odrinhas, e os seus museus, o desaparecido e o actual. Fica para outra oportunidade.

Da Praia Grande as memórias são mais recentes, pois começam em 1952 – afinal já há muito tempo – quando lá passei fugitivamente com meu Pai. Era então um deserto marítimo, que se atingia por um carreiro que corria por cima da arriba, passando junto ao muito famoso – e então de quase ignota localização – santuário do Oceano, do Sol e da Lua, astro associado à deusa Diana, o que imediatamente permite imaginar uma ligação à Serra de Sintra. Hoje, o local tem visitas guiadas, mas deve ser usufruído em solidão. Fazendo aquelas perguntas para as quais não obtemos respostas.

Voltei muito mais tarde, em 1965, e tudo mudara, naturalmente, e depois em 1966, recém-casado em Sintra, com a comissão angolana suspensa pela licença regulamentar. Depois desta visita de alguns dias regressei em 1971 e desde então nunca mais. Perguntar-me-ão se tão reduzidas permanências têm algum significado numa vida. Têm, porque também ali o que contou foi a intensidade daquelas longas horas e o sabê-las únicas, irrepetíveis.

O primitivo Hotel das Arribas, na Praia Grande, em 1966.

O antigo Hotel das Arribas hoje já não me diz nada de novo e recordo as imagens que dele vi, fustigado pelas vagas que então fizeram desaparecer por completo a praia, creio que em 2016, e que na altura me provocou uma estranha sensação de desconforto, quase uma premonição. Um dia voltarei lá, à praia..

E a Ericeira? Que turbilhão de impressões e memórias! Talvez por isso tardei tanto a voltar a esta praia, depois de um período em que voltámos a frequentá-la. Na verdade temos sempre receio de voltar a esses sítios especiais e nada ou pouco encontrar do que foi o nosso ambiente. E assim foi. Embora sendo, esta Ericeira já não é. Daqui a décadas outros dirão o mesmo e talvez seja esta inconstância que dá o ritmo à História. O café do António, que tinha na parede um grande poster com um salto de pára-quedistas em formação e onde fazíamos uma paragem no regresso da Praia do Sul, desapareceu, assim como os mais urbanos Xico e Morais. O Parque de Santa Marta, onde brinquei e depois os meus filhos, transfigurou-se. É certo que o Jogo da Bola e a sua passarada nas árvores lá continua, o mesmo para o Largo de São Sebastião, com a sua bela capelinha, mas agora urbanizado à moderna.

É decerto o progresso, simplificando, mas a diferença mais vincada é o ambiente sonoro, pois os sons fazem sempre parte de um ambiente, agora demasiadamente nórdico e com tintas de Billabong. Talvez a minha migração para norte, nos anos 90, que me levou a São Martinho do Porto, uma jóia em risco de perda, tenha alguma coisa a ver com um sentimento de irreversível mudança. Talvez, e também neste caso o talvez nos deixe na dúvida. Ao longo da vida há momentos de ruptura irrecuperável enquanto outros sobrevivem e persistem imutáveis, vencendo tempo e distâncias.

Nesta Costa da Lua, astro que na mitologia púnica se identificava com a deusa Tanit, não deixa de ser interessante a hipótese do topónimo Ericeira se relacionar com Ericínia, epíteto tópico de Astarté / Vénus na Sicília, o que afasta a divindade em causa do que a tradição consagra para a região do Monte da Lua. Pelo menos é uma hipótese bonita, superior a relacioná-lo com ouriços ou eiriços, que em tempos idos deram nome a um excelente doce local. Os vestígios antigos na Ericeira são parcos, embora a zona tenha conhecido forte implantação rural na época romana e uma fonte local (de Santa Marta?) tenha merecido árula votiva, dedicada por uma Atília Amena, conservada no Museu da Santa Casa da Misericórdia.

Árula consagrada à Fonte, por Atília Amena, na Ericeira.

Mas há outras histórias na história eiriceirense, como o trágico acto final da Monarquia portuguesa, o embarque na barca Bonfim e o transbordo desta para o iate Amélia, surto ao largo, da família real, a 5 de Outubro de 1910. Ou ainda a vinda de refugiados na Segunda Guerra Mundial e o seu impacte na pacata vida dos banhistas da época, sem esquecer as epidemias de febres tifóides, nunca lembradas, uma das quais me ia vitimando.

A Ericeira, que voltei a frequentar a partir de finais dos anos setenta, é aquela terra que me permite, de olhos fechados, percorrer as ruas antigas, como se as visse realmente. Meus pais passavam longas temporadas na vila, onde festejaram o meu primeiro aniversário, numa casa junto ao Forte, casa que ainda permanece. Na Ericeira brinquei com ricos e pobres, auferindo da vida despreocupada de uma criança da burguesia dos anos quarenta. Tenho muitas fotografias e vagas lembranças.

Eu, na Ericeira, no Verão de 1944, na cadeira do realizador Artur Duarte

A Ericeira foi também, e não menos importante, um lugar de encontro de memórias, minhas e de minha mulher, também frequentadora da praia antes de me conhecer, reunidos pelos acasos (?) da vida em Estremoz.

Delimitei a Costa da Luapor dois acidentes geográficos importantes da geografia antiga, o Promontorium Magnum e a Insula Londobris. Este trecho do finisterra hispânico, aqui sem a conotação étnica que agora atribuem ao termo, mereceu, pelas suas peculiaridades, a distinção do santuário do Alto da Vigia, junto à foz da ribeira de Colares, um dos poucos conhecidos no litoral peninsular, santuário onde os notáveis vinham prestar culto ao Oceano, ao Sol e à Lua, misturando-se com a plebe indígena e aproveitando para exprimir lealdades imperiais. O santuário, de acordo com o que dele conhecemos graças a trabalhos arqueológicos recentes, repetia o modelo oriental dos santuários ao ar livre, uma área sagrada, como o seria o santuário do Cabo de São Vicente, descrito por Estrabão. Mas aqui, ao pé da Praia Grande, no santuário imaginado por Francisco de Holanda sem grande exagero renascentista, havia inscrições votivas, algumas em grego.

O santuário do Alto da Vigia, segundo Francisco de Holanda

Um dos vários notáveis que por ali passaram foi C. Iulius Celsus, no século II, alto funcionário financeiro que um dia foi administrador do Mausoléu de Alexandre, na cidade de Alexandria no Egipto, responsável por cargos importantes na Itália, na Dácia e na Gália antes de aportar à Lusitânia. Lugar sagrado para uns, como para mim por razões diferentes, ligado aos dias de ouro de um Setembro longínquo, irrepetível.

Agora, de São Martinho do Porto consigo ver, em dias de bruma apaziguada, ao longe no horizonte com a sua forma de cetáceo gigantesco acompanhado pelos filhotes, o perfil da Berlenga, onde os Romanos construíram um farol antecedendo quase dois mil anos o que lá está agora, pois a zona era perigosa e lá estão os cepos de âncora para o provar. O farol moderno pôs fim a classificação desta costa como costa negra pela falta de sinalização nocturna suficiente, e os naufrágios trágicos do S. Pedro de Alcântara, final de uma viagem iniciada no Chile, e do Roumania a caminho da Índia lembram quanto era perigosa a navegação nocturna na zona. Houve mesmo aquele caso do Highland Hope, em 1930, perdido nos Farilhões alguns meses apenas após o seu lançamento. Assim, consigo ver o que na minha geografia de afectos marca o limite setentrional da Costa da Lua, tentando ouvir vozes que se vão calando e manter as cores em quadros esmaecidos pelo passar dos trabalhos e dos dias.

Às vezes a memória torna-se pesada, quando vai enfraquecendo e se perdem imagens e nomes, criando uma situação vertiginosa de que vivemos em mundos paralelos e que perdemos a possibilidade de voltar a um deles, tornado onírico e que já não é nosso. É particularmente doloroso pensar que já não teremos oportunidade de voltar, não aos tempos passados, que vivem noutro espaço, mas aos sítios sonhados ou vividos, aqueles que nos acompanham teimosamente no quotidiano, a mítica Palmira ou aquela generosa praia angolana do Quinzau. Receio, acima de tudo, as visitas de saudade, aquelas em que se pensa, sem o dizer ou querer admitir, que talvez seja a última vez. Na verdade, como disse o filósofo grego, nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. O que me revolta.

Mas voltemos à Costa da Lua. Ali, o Sol continua a mergulhar no Oceano e a Lua a brilhar num céu que desejamos tranquilo, frente à Praia Grande, onde um dia defrontámos o mistério do amor, talvez sob a égide de Diana. Não muito longe, Sintra perde-se no turbilhão do turismo massificado e distraído, que se pretende representar o futuro desta Lusitânia, alheio à beleza intemporal que ainda subsiste, sobretudo na Serra, ciosamente escondida dos olhos apressados.

Chega-se à varanda e eis a Serra e o seu insistente convite à evasão

Talvez o ciclo do eterno retorno permita, um dia, reencontrar um tempo de equilíbrio em que seja oferecida, aos que podem ver, a visão fugidia de uma deusa caçadora entre a exuberância vegetal do Monte da Lua ou, pelo menos, as Náiades camonianas cantando nas fontes melodias que este século não merece.

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