Isaltino Morais foi a Israel e justificou a deslocação com uma visita a uma feira empresarial. Ao que tudo indica, Oeiras mantém relações com empresas israelitas, porventura empresas estatais, seja através da política municipal de atração de investimento, seja por contratos de prestação de serviços.
Apesar dos crimes de guerra que Israel comete, percebe-se que uma autarquia não rompa de um dia para o outro todos os seus laços económicos com esse Estado. Existem contratos, interesses instalados e compromissos assumidos. Mas também é verdade que nenhuma relação económica é politicamente neutra. Quando um representante institucional português escolhe deslocar-se a Israel para participar numa iniciativa de promoção empresarial, fá-lo num contexto em que o Estado israelita enfrenta acusações de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio sobre a população palestiniana. Ou seja, acaba por contribuir para transmitir uma imagem de normalidade, como se nada de excecional estivesse a acontecer.
Os gestos institucionais têm sempre algum significado. Ao reforçar relações económicas com Israel num momento em que cresce o isolamento político e moral do Estado israelita em várias partes do mundo, um autarca português acaba por participar no processo de branqueamento internacional das políticas do governo israelita.
Esta posição torna-se ainda mais difícil de compreender quando vem de Isaltino Morais. Ao longo dos anos, construiu a imagem de um político irreverente, pouco dado ao pensamento de rebanho e frequentemente crítico da ascensão da extrema-direita em Portugal. No entanto, nesta matéria, o seu comportamento aproxima-se do discurso daqueles que têm sido os mais incondicionais defensores de Israel na política portuguesa, designadamente dirigentes e deputados do Chega. A contradição é evidente.
A VISITA ENVERGONHADA
Há mais um pormenor que merece atenção. Isaltino Morais sempre revelou grande habilidade na utilização das redes sociais como instrumento de comunicação política. Desta vez, porém, a visita a Israel praticamente passou despercebida. Ficou reduzida a um único vídeo, curto, tremido e pouco esclarecedor sobre a presença na feira industrial. Se a deslocação constituía motivo de orgulho político e institucional, por que razão foi comunicada de forma tão discreta? Os políticos raramente escondem aquilo de que verdadeiramente se orgulham.
Também seria interessante perceber quem pagou a deslocação: a Câmara Municipal de Oeiras? A Organização da feira? Algum Ministério israelita? Alguma empresa? Esta informação pode ser obtida através de um pedido de acesso a documentos administrativos dirigido à Câmara. Fica aqui a dica aos jornalistas dos média institucionais ou outros que se queiram dar ao trabalho de esperar pela resposta.
MAS QUE FEIRA É ESTA?
O próprio programa da feira em questão, a MUNIEXPO mostra que não se trata de uma simples feira comercial. É um grande evento organizado pela Federação das Autoridades Locais de Israel, onde se cruzam autarcas, membros do Governo, ministros, responsáveis pela segurança nacional e empresas. O tema central da edição de 2026 é, aliás, a “parceria vencedora”, enquadrada na realidade da guerra, da segurança e da resiliência nacional.


O programa inclui intervenções do ministro da Defesa, do ministro da Segurança Nacional, de antigos responsáveis pela segurança e encerrou com um discurso do Presidente de Israel. Além disso, a própria organização apresenta a conferência como um espaço para construir parcerias entre o poder local, o Governo central e o setor empresarial, afirmando que a MUNIEXPO é “o lugar onde se constrói a resiliência nacional de Israel”.



