Durante demasiado tempo, muitas pessoas viveram sem compreender porque se sentiam diferentes, porque certas exigências do quotidiano pareciam exigir-lhes um esforço constante ou porque o mundo parecia funcionar segundo regras que nunca lhes foram explicadas. Para muitas delas, um diagnóstico trouxe clareza, pertença e acesso ao apoio de que precisavam. Nomear uma experiência pode ser profundamente libertador.
Mas talvez seja precisamente por isso que valha a pena parar e olhar para o que está a acontecer à nossa volta. Porque, ao mesmo tempo que assistimos a uma maior consciência sobre saúde mental e neurodivergência, assistimos também a outra coisa, a uma necessidade crescente de transformar a diferença em identidade.
Já não basta sentirmo-nos diferentes. Parece ser necessário saber porquê, explicar porquê, justificar porquê. Como se a diferença, por si só, tivesse deixado de ser suficiente.
Vivemos num tempo profundamente desconfortável com aquilo que não consegue categorizar. Tudo precisa de um nome, de uma definição, de uma explicação. E talvez isso não seja surpreendente. As categorias tranquilizam-nos. Organizam o caos. Dizem nos quem somos e, sobretudo, dizem nos que não estamos sozinhos.
Mas também simplificam. E, por vezes, simplificam demasiado. Porque nenhuma pessoa cabe inteiramente numa categoria. Nenhum diagnóstico esgota uma identidade. E, no entanto, parece existir uma pressão crescente para cabermos numa qualquer narrativa sobre nós próprios.
Quem sou eu. O que tenho. A que grupo pertenço.
Talvez porque, numa sociedade onde quase tudo se tornou individual, a pertença passou a ser um bem escasso. E quando a pertença se torna escassa, torna-se também um produto. Hoje, também a identidade se consome.
Talvez não seja por acaso. Durante muito tempo, o consumo prometeu conforto, estatuto ou felicidade. Hoje promete também autoconhecimento. Já não compramos apenas objetos. Compramos explicações para nós próprios. Compramos formas de nos entendermos, de pertencermos e, por vezes, de dar sentido àquilo que sentimos.
Como se a complexidade humana pudesse ser organizada através da categoria certa.
Consomem-se livros, podcasts, cursos, conteúdos, comunidades, percursos de autoconhecimento e explicações para aquilo que somos. Consomem-se formas de olhar para nós próprios. E, sem darmos por isso, começamos a consumir identidades da mesma forma que consumimos tantas outras coisas.
Como se existisse uma resposta definitiva para a complexidade humana.
As redes sociais aceleraram ainda mais este processo. Nunca foi tão fácil reconhecermo-nos num vídeo de trinta segundos. Nunca foi tão fácil ouvir alguém descrever um traço da sua experiência e pensar, sou exatamente assim.
Mas talvez um dos maiores problemas do nosso tempo seja a facilidade com que confundimos reconhecimento com diagnóstico.
Porque sentir-se diferente não é, por si só, um diagnóstico. Distrairmo-nos, sentirmo-nos deslocados, não corresponder às expectativas sociais, sentir dificuldade em adaptar-nos a determinados contextos ou ter formas particulares de sentir e estar no mundo fazem parte da experiência humana.
E talvez seja precisamente isso que se tenha tornado difícil aceitar. Talvez já não saibamos muito bem o que fazer com a estranheza.
Vivemos numa época obcecada pela melhoria contínua. Tudo pode ser otimizado, trabalhado, melhorado, transformado numa versão mais eficiente de si mesmo. E talvez por isso se tenha tornado tão difícil aceitar características que não podem ser corrigidas, produtivizadas ou transformadas em vantagem.
O desconforto, a diferença e até a singularidade passaram, muitas vezes, a ser entendidos como algo a identificar, enquadrar e gerir. Talvez tenhamos desaprendido a possibilidade de existir sem uma explicação para tudo aquilo que somos.
Isto não significa desvalorizar diagnósticos sérios, nem questionar o impacto profundamente positivo que podem ter na vida de tantas pessoas. Significa apenas reconhecer que nem todas as diferenças precisam de ser transformadas em categorias de consumo.
Porque existe um risco quando tudo passa a ser explicado através de uma linguagem diagnóstica. Começamos a olhar para a singularidade humana como uma sucessão de características a identificar, enquadrar e otimizar.
E talvez algumas diferenças não precisem de ser corrigidas, nem justificadas, nem sequer compreendidas na totalidade. Talvez algumas precisem apenas de ser acolhidas.
Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que consegue criar uma categoria para cada diferença. É aquela que consegue abrir espaço para a diferença antes mesmo de lhe dar um nome.
E talvez uma das perguntas mais difíceis seja esta: quando foi que deixámos de acreditar que era possível ser apenas diferente?



