MUDAR O SÉCULO SEM ACORDAR O PAÍS

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O diagnóstico de 1902 (uma póstuma homenagem a Oliveira Martins) bate à porta do Portugal contemporâneo com uma precisão cirúrgica. No século XXI, o sentimento português vive uma esquizofrenia identitária: por um lado, exportamos uma imagem de país moderno, tecnológico, turístico e acolhedor; por outro, partilhamos secretamente a mesma melancolia e o mesmo sufoco descritos na Revista – A Comédia Portuguesa – Ano I, Lisboa 1 de Setembro de 1902. A “fortaleza de misérias” mudou de aspeto, mas o labirinto interior permanece idêntico.

"Para as nações como para os homens, o pior estado é o torpor; e o nosso mal não é a paixão que erra, é a fraqueza que se resigna."
"O nosso parlamentarismo é uma farsa ruidosa, onde se discutem vaidades e se esquecem as realidades da nação."
Oliveira Martins

Hoje, o “rataplan do charlatão” já não ecoa nos tambores da praça pública, mas sim no ruído estéril das redes sociais e no mediatismo vazio. Continuamos a sofrer de um complexo de inferioridade crónico que se disfarça de sobranceria sempre que um sucesso individual — seja na ciência, no desporto ou na cultura — é celebrado como uma vitória da pátria. É o mesmo mecanismo de há cento e vinte anos: usamos o brilho do momento para anestesiar a “indiferença fatal” que nos impede de resolver os problemas estruturais de sempre, como a perda de jovens talentos para o estrangeiro ou os salários sufocantes.

O maior perigo do sentimento português atual é a normalização do cinismo como única forma de defesa. Olhamos para as instituições com a profunda “desconfiança do caminhante no meio duma floresta”, resvalando para um fatalismo cómodo que aceita a degradação pública como um destino inevitável. Continuamos a ser o povo que canta a sua própria dor, orgulhoso do passado que herdou, mas estranhamente resignado perante o futuro que tarda em construir.

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