A transição da Monarquia para a República em Portugal foi, sem dúvida, o maior exercício de cosmética institucional da nossa história. O erro crónico de 1910 não esteve na ideologia, mas na romântica ilusão de que a incompetência nacional era uma simples questão de guarda-roupa. Achámos genuinamente que, ao trocar as fardas azuis e brancas por fatos verdes e vermelhos, as finanças públicas aprenderiam subitamente a fazer contas.
O Tédio Hereditário vs. O Caos Democrático
O grande problema da Monarquia era o tédio existencial e a falta de suspense. O país sabia perfeitamente quem ia governar dali a vinte anos: o filho do rei. Não importava se o rapaz era péssimo a matemática, se preferia passar o dia a caçar em Vila Viçosa ou se gastava o tesouro público em carruagens importadas de França. O cargo era dele por direito de nascença e o povo limitava-se a suspirar na taberna.
Cansados desta pasmaceira dinástica, os republicanos decidiram injetar adrenalina no sistema. O erro? Levaram o conceito de “dinamismo político” longe demais. A Primeira República transformou o Terreiro do Paço numa autêntica versão estatal do jogo da cadeira musical. Os governos mudavam com tanta rapidez — foram mais de 40 em menos de duas décadas — que os funcionários públicos abdicaram de decorar as caras dos ministros. Limitavam-se a saudar qualquer senhor de bigode farfalhudo e cartola que entrasse pelo ministério adentro, assumindo que seria o chefe daquela semana. Se tivessem o WhatsApp na altura, as demissões seriam resolvidas por mensagem rápida antes do almoço.
O Milagre da Conversão dos Títulos
O erro mais hilariante da nossa transição foi acreditar que uma mudança de regime alterava o ADN da burocracia ibérica. No dia 5 de outubro, retiraram-se as coroas dos papéis timbrados, pintaram-se os elétricos de Lisboa e apagou-se a palavra “Real” de todas as tabuletas.
Contudo, as pessoas eram exatamente as mesmas. Os mesmíssimos Cavalheiros da Ordem de Cristo, que na véspera faziam vénias profundas a Sua Majestade, acordaram no dia 6 assinando orgulhosamente como “Cidadãos Deputados”. O sotaque queque continuou igual, o gosto pelo clientelismo permaneceu intacto, mas agora tudo era feito em nome do “Povo Livre”. A burocracia, longe de diminuir, duplicou: para provar que éramos uma República moderna, passámos a exigir três carimbos democráticos onde antes bastava uma assinatura real. É uma linha direta que nos liga ao presente, onde o carimbo foi substituído pelo “erro no sistema informático”, mas a espera na fila continua a ser uma experiência monárquica.
A Dieta do Barrete Frígio
O erro de palmatória dos novos governantes foi confundir símbolos com calorias. A propaganda republicana prometera que a queda do trono traria o fim da fome e o início da iluminação cultural. Na prática, o analfabetismo continuou confortavelmente acima dos 70% e o pão continuou caro. A única diferença real é que o Zé Povinho passou a poder ver o país caminhar para a bancarrota de forma totalmente constitucional e votada em urna.
A República tentou ainda proibir os feriados religiosos e apagar a Igreja Católica por decreto, esquecendo-se de que o português médio tolera perder o rei, tolera perder o almoço, mas não prescinde da sua procissão de Santo António. O resultado foi um braço de ferro absurdo onde o Estado tentava prender padres enquanto o povo continuava a orientar a sua vida espiritual pelo calendário dos santos, ignorando por completo os novos heróis civis que ninguém sabia bem quem eram.
O Cordão Umbilical com o Presente
Olhando para trás, percebemos que o grande erro da transição foi a pressa em mudar a carcaça sem mexer no motor do país. Ficámos sem o rei, ficámos sem a corte, mas guardámos religiosamente os vícios, as clientelas e a velha e maravilhosa mania de que a culpa de tudo o que corre mal é sempre do governo anterior.
A Primeira República inventou a arte de governar em sobressalto, inaugurando uma tradição que sobreviveu ao Estado Novo e que se refina a cada comissão parlamentar de inquérito nos dias de hoje. A obsessão por criar comissões de estudo para adiar problemas, as remodelações governamentais de emergência a meio da noite e as guerras de alecrim e manjerona entre Belém e São Bento não nasceram ontem. São heranças diretas daquele laboratório de confusão fundado em 1910. Mudar as moscas sem limpar o prato é, desde o início do século passado, a nossa maior e mais estável tradição republicana.



