A PONTE DE VOUGA

Símbolo da região de Aveiro.

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Academia Portuguesa da História, conferência intitulada A Ponte de Vouga, símbolo da região de Aveiro, por Luís Seabra Lopes. Foi um grito de alerta que importa ouvir. Com urgência.

Escrevia-me ele:

«A petição (que assinou há 2-3 anos, como se deve lembrar) já permitiu convencer o Património Cultural, I. P., a abrir procedimento de classificação. No entanto, a Câmara nada faz e a burocracia de Lisboa é muito lenta… Qualquer dia, cai mais um bocado da ponte».

O que se passa, afinal?

A história

A ponre de Vouga na «Illustração Portuguesa», nº 150, 1909.

A Ponte de Vouga, também conhecida como Ponte Velha de Vouga, Ponte do Vouga, Ponte Velha do Vouga e Ponte de D. João V, construída no século XIII, localiza-se sobre o rio Vouga, entre as freguesias de Lamas do Vouga e Macinhata do Vouga, no município de Águeda, distrito de Aveiro, a cerca de 200 m para montante da nova ponte da EN1/IC2.

Junto a esta ponte monumental se formou e desenvolveu o histórico burgo e vila de Vouga, que foi sede de concelho até meados do século XIX, sede do mais extenso e antigo município do Baixo Vouga, conhecido como terra de Vouga. A importância da ponte para esta região levou a que a figura central do seu brasão fosse precisamente a representação de uma ponte.

Selo de Vouga, com a ponte (1317)

As mais antigas referências actualmente conhecidas são dois legados testamentários a favor da ponte, um não posterior a 1239 e outro datado de 1245. Tinha já nessa altura, pelo menos, 10 arcos, dos quais ainda existem e estão visíveis os pilares e as abóbodas até 2 m acima do plano da imposta. Pensa-se que teria, no total, 12 arcos, com um comprimento a aproximar-se dos 160 m.

Fazia parte da chamada estrada coimbrã, que ligava Coimbra ao Porto e ao Noroeste, seguindo de perto, pensa-se, a velha estrada romana. Aliás, importa citar a informação dada por Gaspar Barreiros, na sua Chorographia, datada de1561, segundo a qual ao rio Vouga se chamou primeiramente Vacca «não por causa do rio senão por causa do nome do lugar». Trata-se, por outro lado, de um dado deveras importante também para a história antiga da região, por nas proximidades se terem descoberto altares da época romana dedicados a uma divindade pré-romana designada Vacus.

Árula a Vaco

A deterioração

As cheias e o progressivo assoreamento do rio foram obrigando a sucessivas reconstruções da ponte, por vezes com alteamento e/ou alongamento do tabuleiro, mas  foi sempre deveras famosa. Sabe-se, por exemplo, que, em 1594, o italiano Giovanni Battista Confalonieri, secretário do patriarca de Jerusalém, passando por ali em peregrinação a Santiago, relatou que a ponte de Vouga era tão longa como a ponte de Sant’Angelo, em Roma!

Em 1708, já estava, porém, tão assoreada que, em tempo de cheias, se passava o rio em barca e, por volta de 1713, a mando de D. João V, foi construída uma nova ponte em cima dos pilares e arranques de arcos da ponte medieval. A nova ponte ficou com 15 arcos.

Contudo, o tempo não perdoou e, devido ao seu mau estado de conservação, acabou por ser encerrada, a 2 de Maio de  2011, ao trânsito automóvel, continuando a ter trânsito de peões, bicicletas e motociclos. De resto, na fotografia de David Machado (vista de jusante e margem sul – Fig. 4), tirada apenas algumas semanas antes da queda do 7º pilar, já se notava a deterioração do contraforte e ligeiro abatimento no tabuleiro.

Ponte velha de Vouga, vista de jusante e margem sul, apenas algumas semanas antes da queda do 7º pilar (fotografia de David Machado)

Por isso, foi criada, a 25 de Maio de 2023, a Petição em defesa da reabilitação, valorização e salvaguarda da ponte de Vouga, no concelho de Águeda, de que o instituto público Património Cultural já tem conhecimento desde 21 de Agosto de 2024; aí jaz, desde Fevereiro de 2025, o processo de classificação. 

Mui provavelmente, essa classificação pouco adiantará, no entanto, em prol da conservação do que do monumento hoje resta, porque ainda sobrecarregará com novos e constantes pareceres qualquer intervenção urgente que aí deva ser feita. E há em Lisboa centenas de processos para apreciação!…

A ponte de Vouga, lado de jusante, em 2021 (fotografia aérea de Skyview – Manuel Ferreira)

O nosso apelo vai, pois, para a população e, de modo especial, para a Câmara Municipal: que se unam esforços, se movam vontades e se ponham mãos à obra!

Enfim, uma longa história que pode ler-se com proveito em https://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_Velha_do_Vouga, donde, com a devida vénia, tomei a liberdade de retirar elementos, com um agradecimento muito especial a Luís Seabra Lopes, estrénuo defensor do património local.

2 COMENTÁRIOS

  1. Lamentavelmente nunca se faz a prevenção de uma ponte na proporção do seu desgaste, nem que as portagens continuem a ser cobradas abusivamente. Aí não há esquecimentos na cobrança, nem cedências aos justificados argumentos dos utentes: “estão pagas: continuar a contribuir para quê, para quem?”
    Por outro lado, é ainda mais negligenciado o património arquitectónico com forte carga histórica afastado dos centros de decisão. Obras de engenharia civil que contam séculos, aguentam-se mercê da arte/engenho com que foram erguidas para servir as populações.
    São criados organismos que de longe pouco cuidam, pouco querem saber, invocando muitas e complexas decisões a tomar.
    Como tão bem sugere José d’Encarnação, terá de se voltar aos principais interessados para que reivindiquem, através dos seus representantes do poder local, o direito de ver reparada essa infraestrutura de passagem.

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