VENTURA QUER CONTROLAR JORNALISTAS

Há uma regra antiga na política: quando as notícias incomodam, o problema passa a ser dos jornalistas. Foi nesse registo que André Ventura acusou recentemente a RTP de estar “minada de comunistas e bloquistas”, apesar de esses partidos terem hoje menor representação parlamentar. O argumento é uma parvoíce. Mas é sobretudo uma mentira.

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Não existe qualquer evidência séria de que a RTP – ou qualquer outra redação – esteja dominada por militantes do PCP ou do Bloco de Esquerda.

vídeo Ventura quer controlar a RTP

Trata-se de uma acusação que tem sido repetida para adquirir aparência de verdade. A velha técnica da atoarda: lança-se a suspeita, amplifica-se nas redes sociais e espera-se que a dúvida faça o resto.

As redações não são parlamentos em miniatura. Jornalistas não entram ou saem das empresas de comunicação social em função dos resultados eleitorais. A composição de uma redação resulta de percursos profissionais e concursos, não de quotas ideológicas. Os Governos convidam personalidades para as administrações que, por sua vez, convidam jornalistas para os cargos diretivos. Já assim, a capacidade de influenciar a linha editorial é grande e deveria ser atenuada e não alargada como Ventura quer.

O problema é que esta retórica coincide com iniciativas políticas destinadas a reforçar o controlo institucional sobre os media públicos. Nos últimos tempos surgiram propostas e alterações que introduzem novos mecanismos de escrutínio parlamentar sobre órgãos de comunicação financiados pelo Estado. À primeira vista, a ideia pode parecer razoável: se são financiados com dinheiro público, devem prestar contas. Mas a independência editorial dos media públicos assenta precisamente numa separação essencial, onde o financiamento estatal não implica controlo político.

É por isso que os jornalistas da Agência Lusa reagiram com preocupação às mudanças nos estatutos da agência. Sendo a única agência noticiosa portuguesa, a Lusa desempenha um papel central no sistema mediático nacional. Grande parte da informação que circula nos jornais, rádios e televisões começa nos seus despachos. Qualquer mecanismo que permita ingerência política na sua direção editorial vai influenciar o universo da Informação, isso não deve ser permitido.

vídeo Lusa em luta

A técnica de Ventura é conhecida. Primeiro acusa-se os media de parcialidade ideológica. Depois apresenta-se a necessidade de “equilibrar” a informação. Finalmente, criam-se mecanismos institucionais que aproximam as redações do poder político. O pior é vermos o PSD alinhar nisto. Percebemos o entendimento quando Ventura diz que os contribuintes que “sustentam” a RTP e a Lusa também são “eleitores do Chega e do PSD”.

A acusação de que a RTP está “cheia de comunistas e bloquistas” não descreve uma realidade verificável, mas cumpre a função de criar o ambiente político necessário para justificar reformas que permitam maior controlo sobre os media públicos. É um truque antigo. Desacredita-se o mensageiro para poder controlar a mensagem.

A verdadeira questão não é saber se a RTP ou a Lusa são “de esquerda”. Essa discussão não faz sentido, raramente se apoia em factos. A pergunta relevante é outra: se queremos meios de comunicação públicos independentes ou órgãos de informação alinhados com a maioria política do momento. Vivemos tempos perigosos, a direita e a extrema-direita querem perpetuar-se no poder.

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