Para já, nota-se a tentativa de manter viva a ‘chama ardente’ da imagem do ex-presidente, na procura de comparações e de palrear, a pretexto de tudo, o nome dele. Alguma comunicação social ficou órfã de Marcelo Rebelo de Sousa, mais do que o País real. Há jornalistas que ficaram ‘viúvos’ da intriga, da mentira, da vichyssoise, do comentador dos jogos de futebol, do circo ambulante em que Marcelo Rebelo de Sousa transformou a Presidência da República. E começam a perceber que o ‘jogo’ mudou e que António José Seguro pretende, sem se afastar dos cidadãos, dar ‘gravitas’ ao cargo, falará quando entender que deve falar e não quando os jornalistas quiserem, que tem uma agenda e que a irá cumprir rigorosamente.
António José Seguro rompe com 20 anos de Presidentes vindos da área do PSD e, independentemente, de vir da chamada ala moderada do PS, marca uma ruptura com esse tempo, ficando para saber o que pode isto significar num quadro parlamentar tripartido.
A este propósito nota-se um apagamento de André Ventura, – apesar de algumas televisões pretenderem mantê-lo visível, com entrevistas e tempo de antena sem limites -, coincidente com o ressurgimento de Passos Coelho, escamoteando dois factores relevantes: que as anunciadas reformas são ‘uma mão vazia e outra cheia de nada’ e que, por muito que queiram esconder, os eleitores portugueses ainda não esqueceram os tempos do governo Passos Coelho.
Chegados aqui importa questionar: Como será a relação entre o Presidente e o governo? Haverá lealdade por parte do primeiro-ministro, que se sente acossado por Passos Coelho, por algumas facções dentro do seu partido e, à direita, por André Ventura? Ou Luís Montenegro irá abrir zonas de conflito com a Presidência, numa fuga para a frente, como forma de justificar os falhanços do governo e a sua incapacidade para governar?
O discurso de posse, tem três vectores a considerar, a proposta para o ‘pacto da saúde’, que contém uma ideia interessante, mas que ‘escandalizou’ um ou outro comentador, por falar em orçamento plurianual – já agora, esta opção até já foi defendida para o Orçamento do Estado –, a necessidade de um acordo para a reforma laboral, perfeitamente desnecessária, na minha opinião, e que apenas alimenta uma opção ideológica de ruptura da paz social e a ideia, contrária à do governo, de que a guerra no Golfo constitui uma invasão. Nos próximos tempos importa verificar como irá ser o relacionamento entre Belém e São Bento, com a ideia de que António José Seguro não me parece que tenha vindo para ser o tabelião do governo e Luís Montenegro vai ter uma desilusão se pretender manter um estilo entre o rural e o chico esperto



