Em “Levarei o fogo comigo”, sobre a terceira geração da família Belhaj, as marroquinas Mia e Inês mostram-se divididas entre o seu desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições do seu país. Ganha em ambas a ânsia de liberdade, mantida acesa pela chama das mulheres que as precederam: a avó Mathilde, a mãe Aicha e a tia Selma, essa mulher sozinha e livre, de uma força desmesurada… Enquanto Inês estudava medicina, Mia procurava nos livros a liberdade e a libertação da sua vida enfadonha e sem brilho.
Para ver uma ilha é preciso sair-se dela, fazer-se ao mar… Mas para nos integrarmos no novo, teremos de dissolver, apagar e anular de onde viemos? O que fazer quando já não somos do lugar onde nascemos e sabemos que nunca seremos do lugar onde estamos?
Em casa de Mia e Inês podia-se criticar o véu, o fanatismo, inflamar – se contra os barbudos mas fora de casa não se podia falar… Era preciso fingir que se respeitava o decoro. Pura hipocrisia, pensava Mia, humilhada por saber que os seus pais não eram livres.
Amar, o que é, afinal? Talvez amar não tenha nada que ver com as palavras. Talvez amar seja não fazer perguntas, não abrir os armários que o outro teve o cuidado de fechar à chave.
Mia também partiu de Marrocos, uma partida daquelas que determinam uma vida inteira. Por vezes, é preciso ir sem olhar para trás porque essa história das raízes não passam de uma maneira de nos pregar ao chão. Não importa o passado, a casa, os objetos, as recordações. Importa atear com todos eles um grande incêndio e levar o fogo connosco.
Não ceder, nunca, no que toca à liberdade.
Por vezes, muitas vezes, temos de ir sozinhas ao encontro dos monstros. Até ao dia em que recomeça em nós o desejo de voltarmos às origens…
Podemos ser, ao mesmo tempo, daqui e de lá?



