O PAÍS DAS UVAS

Desde o tempo das escavações arqueológicas em São Cucufate, pelos anos 70 e 80, que eu sentia a vontade de ler "O País das Uvas" (1893), na perspectiva de ali saborear eloquentes descrições desse Alentejo ímpar. Enganei-me.

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Aqueles finais da tarde de sexta-feira na adega de grandes talhas dos irmãos Parreira, em Vila de Frades, jamais se esquecerão. O vinho saía da talha, qual precioso néctar, para ser acompanhado por um naco de pão trigueiro e queijinho seco a condizer…

Poderiam ser cenas dessas emotivamente descritas nesse livro saído da pena de um vilafradense e até também alguma descrição que o antigo convento lhe poderia ter merecido, mesmo antes de suspeitar do que, cerca de um século depois, a nossa equipa ali haveria de pôr a descoberto, do vetusto tempo dos Romanos. Mas não…

Um olhar tenebroso

Logo o anônimo autor da nota introdutória da edição que li (Publicações Europa América) fora peremptório na apreciação: “cenas de um certo miserismo sádico”, capazes de suscitar não um sorriso mas um esgar. Era isso que eu encontraria, sim. Fiquei com pena.

Desconhecia-lhe, de facto, a Fialho de Almeida (1857-1911), essa atracção pelos aspectos negativos da vida, essa “prosa barroca” e decadente, que – importa frisá-lo! – em nada contribuem para a imagem do Alentejo, ainda que nesse final do século XIX e primórdios do século XX. Aliás, natural é, na mudança de século, que alguns espíritos se deixem levar pela melancolia. Fialho de Almeida não resistiu. Inclusive, quando, tendo casado rico, logrou ser um médio proprietário rural, as recordações dos seus tempos de sofrível boémia lisboeta, onde tivera a pretensão de se impor, lhe dominavam o pensamento e a escrita. Foi um infeliz.

Leia-se, a título de exemplo, o que escreveu, num 4 de agosto “de mau humor”, verberando com látegas cruéis a figura soez do propriatairo (assim mesmo, em itálico, num desabrido escárnio):

“Muitos cavaram a terra, rapazes, e, atingida a fortunazinha ambicionada, votaram ao desprezo os companheiros de labuta, fazendo por imobilizar-se numa casta superior à do seu berço. Desde esse dia desenvolveram qualidades de usura e sordidez que já tinham começado a mostrar em cavadores”.

E, mais adiante, afigura-se-nos concupiscente a descrever as maldades desse propriatairo que, “nas tabernas, chupando o cigarro, com um cinismo vesgo”, é homem para, eivado de ódio aos ricos homens, incitar a canalha a arrancar-lhes de noite as plantações a entrar-lhes cos rebanhos nas searas e a deitar fogo ao trigo arroleirado por essas courelas afora”.

Que mundo, senhores! Como as letras constituem, na verdade, campo propício a todas as veleidades, a todas as infames profecias, fátuos alarmismos e, ao invés, ao encantado louvor de suaves e esperançosas madrugadas!

Prefiro, pois, ficar-me pelo título. Para mim  pesem embora as outras regiões vinícolas do meu abençoado Portugal, “País das Uvas” pode muito  bem ser o Alentejo. Vila de Frades e Vidigueira não as quero ligar a esse Fialho de Almeida, mas sim às majestosas ruínas da villa romana de São Cucufate (onde também no lagar encontrámos grainhas de uvas romanas e que, durante sete anos, me ocuparam deveras) e ao prazer de uma caneca de fresco vinho rosado, a sair da grande talha de barro…

ruínas de São Cucufate

3 COMENTÁRIOS

  1. Meu querido Amgo
    Talvez este livro não represente o verdadeiro Fialho de Almeida, mas as personagens de um título de ficção – Contos – que descreve o ambiente rural de uma província que, como outras, tinha herdado muita miséria social e humana depois de uma brutal guerra civil.
    O género de ficção CONTOS é sempre muito difícil de obter êxito.
    Depois, curiosamente, o desencanto trá partido dele. Apesar de se ter formado em Medicina, abandonou a área de formação para vir para o espaço rural, mas é com acutilância que descreve os ambientes que contrapõe aos urbanos.
    O livro é daqueles que estranhamos e depois se entranham, tens razão, mas bastante variado ao longos dos 21 contos, creio. Só que, aqui, também pesa, para a tua avaliação desfavorável, o profundo conhecimento que tens de épocas mais remotas e talvez pacíficas para os habitantes locais, neste caso de S. Cucufate.
    Imginar belos lagares, talhas descomunais, canecas de vinho encorpado, por tantos anos te envolveres em investigação nesse lugar, destrona qualquer verdade menos gloriosa.
    Um grande abraço.
    Noite muito feliz e um ANO de boas colheitas.

  2. De: Jorge de Alarcão
    8 de janeiro de 2026 19:19
    É uma figura curiosa, o Fialho de Almeida. Talvez o seu carácter se justifique por um sentimento de inferioridade. As propriedades que tinha no Alentejo eram pequenas. Numa terra de latifundiários, sentia-se inferiorizado.
    Tem um conto que se passa nas ruínas de S. Cucufate. Foi publicado num jornal de província que eu nunca consegui encontrar. Talvez por ser obra menor, não foi impresso nas Obras completas editadas pelo Círculo de Leitores.

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